quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Propósito da «Ratoeira» da Dívida - 1

Ou as areias (movediças e pantanosas) da Dívida
Um primeiro apontamento
Sempre que me falam da Dívida, como eu não sou contabilista (era para ser mas não fui...) nem economista (não deu para isso), de vez em quando tenho que fazer ums «contitas» para tentar perceber o que se passa. Hábitos que ficaram de quando tinha que gerir uma empresa. Ou melhor, uma muito pequenina sucursal de uma (MUITO) grande empresa transnacional.
Por outro lado, e como alguns dos meus amigos de vez em quando me vêem com o argumento de que «o Estado é como uma família, não pode viver acima das suas possibilidades», vou tentar fazer aqui umas contas «como se o Estado fosse uma família», embora saiba que este tipo de argumentos enferma do erro básico das «falácias de composição» (o que é válido para qualquer uma das partes não é válido para a totalidade agregada dessas partes).
Tanto quanto eu saiba, PIB (o Produto Interno Bruto - agora parece mais adequado falar de Rendimento Interno Bruto...) não é a mesma coisa que «Riqueza Nacional».
Mas uma coisa parece certa: se o PIB crescer 2%, isso quer dizer que a Riqueza Nacional também pode ter crescido 2%. Por outro lado, se o PIB não crescer tanto quanto se desejaria, e o pessoal tiver que amortizar ou pagar uma dívida, então uma possível solução é a «venda de património ou riqueza nacional». É que sem crescimento muito (mas mesmo muito) significativo não há maneira de «pagar qualquer dívida».
Vamos então imaginar – é só um exercício mental – que a Dívida é legítima. Que não houve «aldrabices» nem «conluios» ou «golpadas» mais ou menos especulativas. Para determinar tudo isso era preciso uma Auditoria à Dívida... Mas para isso bem podemos esperar sentados. O governo não colabora, facto esse que só alimenta suspeitas. «Quem não deve não teme»...
Mas, seja como for, se a Dívida for mesmo legítima, até por uma questão de honestidade e boa reputação (um «capital simbólico» precioso...) há que pagar essa dívida.
Então é assim. E vamos partir de um cenário não completamente pessimista em que a economia é imaginada «estar a crescer» !!! 
Era mais ou menos assim que se explicava aos mestrandos em Estudos Africanos o drama da chamada «Ratoeira da Dívida». Coisa velha já de algumas décadas... Havia ainda a explicação sobre o crescimento populacional e o efeito das oscilações do «valor do dinheiro»...

O exemplo numérico acima servirá apenas e tão só para ilustrar uma verdade aritmética simples: se a taxa de juros da dívida for (ainda que ligeiramente) superior à taxa de crescimento da economia, não há como reduzir a dimensão do montante da dívida, a menos que se vá «comendo» (saldando, vendendo...) o património ou «riqueza nacional acumulada».
O sr. Ministro da Economia anunciou, com pompa e circunstância quanto baste, que até 2020 quer pôr a economia nacional a crescer a 3%. Até lá vamos ver. 
Mas se os juros da dívida forem na ordem dos 3,1% nunca mais reduzimos o seu montante. A menos, repito, que se venda património. Com o risco de se estar a vender património que por sua vez até poderá ajudar o crescimento e dar «lucro» à colectividade social que é o Estado (ou seja à «Nação políticamente organizada»).
Entretanto nem a Economia está a crescer, bem antes pelo contrário, nem os juros são assim tão baixos. Deve ser por isto que anda tanta gente a dizer que «é impossível pagar a Dívida». Não vejo - e confesso a minha incapacidade para ver - outra razão...
Serão todos tontos - esses que dizem que é impossível pagar esta dívida - e só os senhores ministros das finanças e os muitos técnicos das troikas é que sabem o que estão a fazer?...
Se calhar... Eu sei lá... 8-(
Ah, falta lembrar (ou sublinhar) que a Inflação (essa malvada...) é um excelente instrumento de desvalorização das dívidas. 
Deve ser mesmo um dos pesadelos da sra. Angela Merkel

Notas finais: 
1. O exercício lá de cima era mesmo só a título ilustrativo!... Em 26 de Abril de 2013 os juros para a dívida a cinco anos eram de 4,565%. No caso da divida a dez anos, os juros eram de 5,793%.
2. O exercício acima foi feito à mão, com uma calculadora  e sem Excel  (não fosse o diabo tecê-las...), pelo que se agradecem quaisquer chamadas de atenção para eventuais erros.
 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Mais tempo para nos afundarem...

Mais algumas rudimentares considerações de um não-economista...
Uma das notícias do dia (23 de Abril de 2013) é a de que a França, a Espanha e Portugal «vão ter mais tempo para reduzir o défice».
Traduzindo em efeitos de curto e médio prazo - pelo andar desta carruagem – isto quer também dizer que estes países estão autorizados a aumentar as respectivas dívidas públicas.
Ou seja, meteram-nos (prometeram futuros luminosos de rendimentos crescentes, aliciaram-nos, empurraram-nos) para um buraco de areias movediças e quanto mais nos mexermos ao som das cantigas que eles cantarem, mais nos vamos enterrar.
Entretanto vão agora dizendo que é preciso promover o crescimento e que faz falta «abrandar a austeridade» (ou algo assim...) .
Pois todos estaremos de acordo que é preciso «promover o crescimento», embora haja quem questione o princípio do crescimento em si mesmo. Quem pense que o que faz mesmo falta é de mudar de paradigma e, em vez de «crescimento», optar antes por «desenvolvimento».
Para alguns mais ignorantes será a mesma coisa. Mas não é!
Dizem-nos alguns «analistas de aviário» que proliferam nas TVs e outros meios de comunicação social, que é preciso promover o consumo, pois que grande parte do PIB (aqui e em muitos outros países) é dependente do consumo das famílias. Por isso também, no esquema deles, era bom que os países que pregam a austeridade (normalmente os mais ricos...) promovessem o crescimento do consumo das famílias desses países mais ricos e que importassem mais de outros países, dentro e fora da eurolândia.
Até certo ponto isto até é capaz de ser verdade, mas ao estilo de «com a verdade nos enganam».
Só que a economia é uma coisa tramada de tão complexa...
Para aumentarem o consumo das famílias sem aumentarem os seus rendimentos reais – em contado – só se for por facilitação de recurso ao crédito ao dito consumo. E lá vem de novo o arranque de mais uma outra «bolha de dívida privada» condenada a estoirar daqui a mais uns anos.
Mas se as empresas aumentarem os rendimentos reais das famílias (ou seja, aumentando os salários) lá vem a incontronável «perda de competitividade» (dizem eles, claro... a coisa, também aí não é nada linear). 
Ou então – é ainda uma outra alternativa - se forem os Estados a reduzirem os impostos dos rendimentos do trabalho para ficar mais dinheiro para o consumo das famílias, lá torna a crescer o défice público, nosso e deles (o dos países ricos). Ou seja, quando se chega ao «limite», alguém tem que ceder um bocadinho para que outro alguém possa receber algo mais do que aquilo que já recebia.
Uma embrulhada...
Claro que se podiam fazer outras coisas como «ir buscar o dinheiro onde ele está».
Por exemplo, no caso Português, deixar de pagar as rendas de monopólio a umas coisas a que chamam «Parcerias Público Privadas». Ou aos monopólios da energia e telecomunicações.Embora ainda haja por aí uns senhores que acham que têm sido «os privados» quem tem estado a subsidiar o Estado.
Ou ainda adoptar um novo paradigma fiscal que focasse a cobrança de impostos empresariais não tanto sobre os lucros mas sim sobre a actividade. Era muito capaz de ser uma bela machadada no sistema mundial «offshore» (os vulgarmente chamados «paraísos fiscais»)...
Uma outra coisa que podiam fazer era reduzir os tempos de trabalho.
Sim, sim.. Reduzir os tempos de trabalho. Distribuir as tarefas que há para executar pelo maior número possivel de pessoas. A começar pelos jovens à procura de primeiro emprego.
Mas, por favor, não falem disto - da redução dos tempos de trabalho - a nenhum economista convencional. Os economistas convencionais respondem logo que este vosso sociólogo do trabalho (de vez em quando não deve ficar mal puxar por uns galões «académicos») certamente nunca ouviu falar da «lump of labour fallacy» ou (em vernáculo lusitano) «falácia da quantidade fixa de trabalho».

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A canção e o cantor...

Ou «ter razão antes de tempo»...

A propósito da crise em Chipre muito se escreveu sobre as malvadezes (que de facto são mais do que muitas...) dos actuais dirigentes da União Europeia e do governo da Alemanha em particular.
Estando a «cantar desafinado» ou «em descompasso» dir-se-ia no entanto que, se calhar, «algo estava a mudar». Seria apenas mais uma leitura possível, mas foi a que então me ocorreu.
A «solução» adoptada para Chipre parecia indiciar que, dos resgates tradicionais (os chamados «bail-outs») em que os encargos com vigarices e aventuras especulativas dos bancos acabavam por recair sobre os contribuintes (veja-se o caso BPN e quem está a pagar essa vigarice), se estava a evoluir para resgates a cargo dos depositantes (e outros credores) dos bancos em insolvência (os chamados «bail-ins»).
O periódico «Le Monde Diplomatique» (por exemplo) pela pena de Serge Halimi condenava (com toda a severidade politicamente correcta) as decisões da União Europeia de obrigar os depositantes (em condições determinadas) a pagar parte dos custos que resultassem da sua «imprevidência»... «Com efeito é mais liberal espoliar um reformado cipriota a pretexto de que através dele se visa um mafioso russo», escreveu Serge Halimi. Isto num contexto em que, segundo alguma doutrina, os depositantes não são totalmente inocentes quando entregam o seu dinheiro a potenciais ladrões. Por outras palavras, os depositantes têm a obrigação de se cuidarem e verem com prudência quanto baste «a quem é que confiam o seu dinheiro». Pense-se a esse respeito no conceito de «risco moral»... Para além de não ser referido o facto de que algumas dezenas de milhares de «reformados cipriotas» são de facto reformados britânicos que residem em Chipre  para não pagarem impostos no Reino Unido. 
No caso da opinião portuguesa mais influente, uma personalidade como Manuel Alegre verberou também a atitude ditatorial (digo eu...) da Alemanha, ao impor as condições que foram impostas para «ajudar financeiramente Chipre». De resto julgo que não exagero se disser que houve em Portugal (e no resto da Europa) um coro de protestos contra as imposições do Eurogrupo e o seu presidente, o sr. Jeroen Dijsselbloem, foi alvo de críticas generalizadas. Em particular quando disse que o esquema adoptado para Chipre poderia vir a ser replicado para outros países da Eurozona. Por seu lado, o sr. George Soros, numa palestra recente e que tem sido referida na imprensa, também achou que aquilo tinha sido um tanto ou quanto abusivo: «nesta conjuntura», «a Alemanha tinha ido longe de mais».

E no entanto...
O relatório mensal «GEAP - Global Europe Anticipation Bulletin», Nº 74 (Abril de 2013) do «think tank» «Laboratoire Européen d'Anticipation Politique (LEAP)», vem a este respeito alertar para a possibilidade de «estar declarada a guerra entre o mundo económico-polítco e os interesses bancário-financeiros» («The war has been declared between the economicpolitical world and the financial-banking interests»), falando também de «guerra política contra o terrorismo financeiro».

Será mesmo?...
Será que as «tecno-estruturas» estatais de vários países se começam a cansar (a pressão social, os colegas e amigos, as redes sociais à moda antiga...) e chegaram à conclusão de que «enough is enough» (em verbáculo lusitano, «basta!...») e que chegou a altura de pôr alguma ordem na res pública?...
Será que alguns membros mais influentes e mais esclarecidos dessas «tecnoestruturas» estatais se dão conta de que a História está em devir permanente e que entre o caos e a barbárie a escolha racional só pode vir a redundar num futuro Socialismo?...
Nesse contexto, confesso, prefiro prestar mais atenção à «canção» do que ao(s) «cantor(es)».

O que é o GEAP?...
Um boletim mensal do «Laboratoire européen d'Anticipation Politique (LEAP)» distribu'ido em todo o mundo pela fundação holandesa GEFIRA.
http://www.leap2020.eu/Everything-you-wanted-to-know-about-GEAB_r28.html

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O Sr. Soros, a sra. Merkel e a crise do Euro

Tal como referido em mensagem anterior, há uns dias atrás veio a lume o texto de uma palestra proferida pelo sr. George Soros perante um auditório constituído por membros das elites alemãs. 
O tema dessa palestra seria então o da Alemanha, a política prosseguida pela sra. Merkel, a crise da dívida dos países «periféricos» e os «eurobonds».  
Em resumo, e depois de várias considerações sobre o percurso da União Europeia e aquilo que estava a acontecer e o porquê da sua preocupação com o rumo dos acontecimentos (a ponto de se arriscar a «antagonizar os Alemães»), aquilo que Georges Soros procurou explicar ao seus auditores alemães era que a Alemanha tinha três opções:
Opção número 1. «Deixar andar»; por outras palavras, continuar com alguns apoios fnanceiros a conta-gotas e apenas para tentar evitar o pior (ou seja, digo eu, a falência de alguns bancos alemães).
Opção número 2. Adoptar/apoiar de imediato e com grande firmeza mediática o sistema de financiamento «eurobonds». Ou seja, digo eu – e dizem todos, claro – a mutualização da dívida pública de todos os países membros da zona euro).
Opção número 3. A Alemanha sair do euro e deixar aos outros países (a começar pela França, Itália e Espanha, digo eu...) a opção de esses outros países manterem o euro e emitirem eles em conjunto os seus «eurobonds».
Para Georges Soros, a pior da opções é a primeira.
A melhor das opções seria a segunda.
A terceira opção seria um aparente «mal menor» para a Alemanha e uma saída ou alívio (o «acordar de um pesadelo»...) para todos os outros países, em particular os chamados países periféricos (digo eu...).
Na opinião de Georges Soros a saida da Alemanha do euro teria para as empresas alemãs o inconveniente de as suas exportações se tornarem ainda mais caras (o novo Marco alemão valorizar-se-ia de imediato) e os créditos dos bancos alemães (em euros) sobre os parceiros europeus ficariam de imediato algo desvalorizados.
Por outro lado, esses «eurobonds», mesmo sem a participação da Alemanha, seriam ainda assim uma melhor aplicação financeira – mais atraente para os «mercados» - do que os «bonds» (obrigações do tesouro) em iénes, libras ou dólares.
A consequência mais importante seria a de que os encargos com a dívida dos países que continuassem com o euro como moeda comum ficavam de imediato mais reduzidos; quer pelo efeito de desvalorização do euro, quer pelo efeito de aumento do PIB por aumento da actividade económica.
Um resultado ou consequência «nada menos do que milagrosa»... Soros dixit...
Por outro lado, a retoma da actividade económica nos países que permanecessem no euro iria mais do que compensar os custos da saída do euro da Alemanha e de um ou outro país que optasse por permanecer aos ditames do Bundesbank (hoje intermediados pelo BCE).
Em todo o caso, tudo isto são elocubrações muito interessantes mas com muito poucos reflexos na realidade dos factos. Para além dos ditames da geografia física (a Alemanha está onde está...), nunca, por nunca, passaria pela cabeça dos dirigentes alemães abdicarem do instrumento – o euro – que lhes tem justamente permitido submeter à vontade dos seus patrões (as empresas multinancionais de origem alemã...) os destinos dos trabalhadortes europeus.
Por mim partilho inteiramente do «pessimismo» final (implicito!...) de Georges Soros quando disse aos seus auditores alemães que o fim do euro seria provavelmente o fim da União Europeia.
No que respeita a Portugal – regressando à opiniões dos participantes no debate do «Prós e Contras» desta última Segunda-Feira – a saída ou não saída do euro é uma falsa questão.
Aliás tudo isto tem muito de jogadas de «poker»...
Imaginem qual seria a reacção do sr. Schauble e quejandos se amanhã um ministro plenipotenciário da República informasse «Bruxelas» e «Frankfurt» de que Portugal quer deixar o euro... 
Finalmente - e para concluir este breve apontamento - tudo «isto» seria muito bonito se houvesse no sistema, por parte dos seus agentes económicos supostamente «mais empreendedores», qualquer interesse novo ou motivação para o investimento reprodutivo de riqueza efectiva, não de «riqueza virtual» (ou de «capital fictício»). 
Os detentores de grandes fortunas e de capital fugido aos impostos não têm mais qualquer interesse em «aumentar a produção», «criar emprego»...
Para compreender minimamente o que se está a passar - com esta falta de motivação sistémica para o investimento - até nem e preciso ir a Marx. O Keynes explicava isso com alguma razoabilidade.
Parafraseando o dito cujo, «se os empresários não investem por falta de motivação, então tem que ser o Estado a investir»...
Mas disso não fala o sr. Geroge Soros, apesar de ser o mecenas patrono do «INET - Institute for New Economic Thinking», onde proliferam muitos keynesianos.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Sair ou não sair do euro?...

Há uns dias atrás o «Social Journal Europe» publicava o texto de uma palestra proferida por George Soros perante uma audiência de dirigentes empresariais, jornalistas e académicos alemães. A certa altura refere que as políticas alemãs do Euro tinham levado países como a Espanha e a Itália à situação (ou estatuto) de «países do Terceiro Mundo», querendo com isso dizer que os países do Sul da Europa (a «Periferia»...) se tinham endividado numa moeda que não podiam controlar.

A referência a «países do Terceiro Mundo» leva-nos inevitavelmente a pensar nos famigerados «Programas de Ajustamento Estrutural» aplicados pelo FMI («ponta-de-lança» das instituições do «Consenso de Washington») em quase todos os países da África SubSahariana, Ásia do Sul e América Latina.
Não há um único caso de sucesso que eles possam apontar, embora às vezes venham referências a países como a Ilha Maurícia (acordo de texteis com a UE) ou outros que começaram de há uns anos a esta parte a negociar com a China. Melhoramentos (e crescimento) em resultado dos tais famigerados «PAE's», népias...
Se a História nos ensina alguma coisa - e atendendo a que nada mudou na lógica de funcionamento do sistema - e considerando que estes programas de austeridade impostos pela troika não são mais do que versões «recauchutadas» daqueles famigerados «PAE's», estaremos condenados ao mesmo destino...
A questão que aqui e agora mais interessa  é o da dificuldade (ou mesmo impossibilidade desses países em cobrar impostos para cobrir as suas despesas correntes  (quanto mais para o desenvolvimento económico e social).
E foi assim que esses países (a começar no Zaire em fins dos anos Setenta e mais tarde na América Latina em 1982) tiveram que recorrer a «financiadores externos»...
Pois é, os países podem ser outros, mas a lógica da História mantém-se:  a dificuldade  (ou mesmo impossibilidade na cobrança de impostos. 
Em montantes razoávelmente equivalentes aos montantes que cobravam quando tudo parecia correr muito bem no melhor dos mundos possíveis.

Tudo isto vem também a propósito do «Prós e Contras» de ontem (15 de Abril):
 «Sair ou não sair do Euro»  eis a questão.
Diziam (ou discutiam) os economistas convidados pela sra. Fátima Ferreira.
É uma banal constatação que facto de o país se ter endividado numa moeda que não controlamos, nos coloca na situação de «país do Terceiro Mundo» (como dizia Gerge Soros). 
Mas a verdadeira questão é outra.
 A verdadeira questão - A DO FINANCIAMENTO DO ESTADO - é a questão da não capacidade para efectuar a cobrança de impostos. 
Claro que quando se fala nessa menor capacidade «na cobrança de impostos», o cidadão comum pensa logo em declarações de IRS, IVA e outras coisas do género. Assim como pensa também na chamada «economia paralela» (a dos biscates, mas não só) e que, dizem as pessoas bem pensantes, «não paga impostos»... Esquecendo que, ou passando de lado em relação ao facto de que, aqui e em todos os outros países mais desenvolvidos, são justamente as PME's nacionais/locais aquelas que suportam a maior carga fiscal de tipo IRC.
Os nossos media (mas não é só aqui...) começam timidamente a falar dos outros impostos... 
Mas falam sobretudo de evasão fiscal e ainda muito pouco dos impostos que antigamente eram pagos pelas  grandes empresas e seus executivos de topo e que entretanto deixaram de ser pagos, assim como dos esquemas (legais!...) de evitação e optimização fiscal. Ou ainda e também dos famigerados esquemas de «preços de transferência» na facturação interna (entre filiais do mesmo grupo empresarial).
Ou seja, dentro ou fora do Euro -  aquilo que faz verdadeiramente falta  - para além de «avisar a malta» -   é um novo paradigma fiscal!... 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A gradual emergência de um novo paradigma fiscal?!...

A ver vamos, como diria o cego...
Sempre à procura (e à espera de encontrar «boas notícias»...) tropecei  hoje - 12 de Abril de 2013 - no jornal «Público» onde vem uma notícia muito interessante: «UE exige mais transparência na área do petróleo», em artigo assinado por Joana Gorjão Henriques.
Para lá do combate à corrupção que vem de longa data sendo praticada pelas companhias petrolíferas (mas não só...) na obtenção de contratos de exploração em muitos e diversos países, a ideia parece ser a de obrigar essas empresas a declarar tudo aquilo que paguem (está-se mesmo a ver...) a ditadores, sua "entourage" e «burocratas mal pagos», para obterem facilidades de exploração dos recursos naturais ao dispor de todo esse pessoal. Tudo isso - da novas regras - como se a imaginação e inventiva dos executivos encarregados dessas «golpadas» não fosse capaz de inventar novas formas de camuflar os pagamentos indevidos, ilegais e ilegítimos...
Em todo o caso, sendo embora um muito pequenino passo na direcção certa, o conteúdo a que se refere a notícia   deixa de lado um aspecto fundamental.   
É que, como dizia um aristocrata francês do século XIX, «nas grandes famílias como nas grandes árvores, são os ramos mais pequeninos que fazem mais barulho»... O mesmo se passa com a corrupção. A grande, aquela que faz andar o capitalismo, essa não se passa em África, na América Latina ou na Ásia do Sul... Essa passa-se no mundo «civilizado» e «Ocidental».
Mas (enfim, é a minha opinião...) a parte mais intertessante da notícia é a referência à  «Secção 1504 da lei da reforma financeira americana Dodd-Frank que entrou em vigor em Agosto e que força as empresas cotadas na bolsa americana a reportar, projecto a projecto e país a país, as suas contas - e é isso que vai acontecer na União Europeia»...
Como se isso fosse mesmo assim.
Como se as empresas - todas as empresas - cotadas nas bolsas tivessem a partir de Agosto de 2012 que esmiuçar nas suas declarações aquilo que pagarem em todos países onde tenham operações. 
Por outro lado - e isso é fundamental e daí o meu desapontamento - acontece que as «empresas cotadas na bolsa» são - para já somente aquelas que se dedicam à extracção de recursos naturais . Não são todas as empresas.
Isso sim, isso é que era um passo nada pequenino (...) na direcção certa. 
No entanto, sempre pode ser que se venha a argumentar (isso é que era bom...) que a cultura de bananas também é extracção de recursos naturais e, desse modo, ao abrigo da tal lei Dodd-Frank, obrigar as empresas que controlam as (literalmente) «repúblicas das bananas», a declarar os seus resultados lá onde eles efectivamente acontecem...
Eventualmente isso até se poderia alastrar a outros sectores de actividade. 
Por exemplo, a pesca e a agricultura industriais ou a transformação dos minérios...
Isso já seria um passo certo rumo a um golpe tremendo na   evitação    fiscal.  
Causa primária e fundacional da crise da dívida.  
Mas quanto a isso, o alastramento a outras actividades, cheira-me que bem posso esperar sentado... 


 Pedindo emprestado, com a devida vénia, a http://sorisomail.com/anedotas/131885.html


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pluralismo no Ensino da Ciência Económica


Começo por sublinhar que todas estas reflexões são feitas a partir de uma simples posição de cidadania... Não tenho pretensões a «botar sentença» sobre a matéria; apenas alertar para o problema, dada a importância que tudo isto tem para as nossas vidas e dos nossos filhos e netos. 
Temos então que, ao longo dos últimos anos, em diversos países, se tem vindo a verificar como que um movimento de rebeldia - por parte de alunos e mesmo alguns professores - face ao ensino monolítico do chamado «paradigma neoclássico», o qual, na versão ou perspectiva de política económica, assume a «máscara» mais conhecida por «neoliberalismo».
Se bem me lembro a coisa começou em França e espalhou-se depois para o Reino Unido e outros países de língua inglesa, dando origem a um movimento com potencialidades muito interessantes e que dá pelo nome de «Post Autistic Economic» (ou «Teoria Económica Pós Autista»).
Ver aqui:

Em fins de 2012 também na Alemanha da sra. Merkel surgiu um primeiro sinal (parece que com bastante força) de rebelião contra a ortodoxia neoclássica e neoliberal que também ali se estabeleceu.
Basicamente, ao que parece, a coisa começou com uma carta aberta dirigida ao presidente da «Ordem dos Economistas» da Alemanha. De passagem será interessante assinalar que a instituição que entre nós se designa por «Ordem dos Economistas», na Alemanha se designa - em tradução literal - «Associação para a Política Social»
Trata-se certamente de uma herança simbólica dos tempos em que predominava na Alemanha, no ensino da Teoria Económica, a abordagem da Escola Histórica.
Ver aqui:

Já em 2011 tive ocasião de publicar na revista Seara Nova um pequeno artigo defendendo a necessidade de um longo e persistente combate ideológico para a diversificação do ensino da Ciência Económica.
Aquilo que acontece actualmente é o ensino de uma «ideologia matematicamente pura» - na feliz expressão do Prof. Alan Freeman da Universidade de Greenwich - complementada pelo ensino de pragmáticas técnicas de contabilidade e finanças, muita matemática (se calhar ao ponto de os alunos se enamorarem desse instrumento de análise em vez do objecto de estudo - a «Economia realmente existente») e alguma dose de história do pensamento económico. Este simples facto de quaisquer abordagens alternativas (designadamente a abordagem marxista ou a abordagem institucionalista) estarem normalmente confinadas a uma cadeira de «história do pensamento económico» é já por si bastante significativo: é como se a «coisa» estivesse morta, tenha deixado de ter interesse operacional. 
Um outro aspecto particularmente significativo é a não discussão exaustiva de um tema tão fundamental (e fundacional da ciência económica) como é o caso do(s) conceito(s) de valor.
Os cientistas sociais mais jovens que peguem nisto e tratem de fazer a necessária revolução no estudo da «Economia realmente existente»...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Eu «pecador» me confesso - ou porque razão já fui a favor do euro...

Quando Portugal possuia ainda um grau suficiente de soberania que lhe permitia ter uma moeda própria e portanto o privilégio de manipular (quanto bastasse...) a massa monetária em circulação no território nacional, o remédio tradicional (e aparentemente mais fácil no curtto prazo) para curar desequilibrios na balança de pagamentos, era o da desvalorização cambial. Em termos simples tornavam-se as exportações mais baratas (e portanto seria mais fácil «exportar mais»...) e tornavam-se as importações mais caras (e portanto seria mais natural que se «importasse menos»...).
Esse recurso à desvalorização cambial (pensava eu então) parecia-me ser uma «fuga para a frente» em que se aumentava a competitividade por via do embaratecimento dos preços de venda ao exterior. Ou seja, era um encorajamento à preguiça das nossas burguesas elites.
Na minha «santa ingenuidade» pensava eu então que a única forma de as nossas elites «aprenderem» a investir a sério na promoção tecnológica da nossa força-de-trabalho era retirando-lhes a facilidade de estarem sempre a desvalorizar a moeda nacional de cada vez que se tornasse evidente a necessidade de «exportar mais». Na minha «santa ingenuidade» pensava eu então que uma vez «presos» a uma moeda única, comum a um espaço económico alargado e competitivo por outras razões (ciência, tecnologia, mão-de-obra qualificada...), as nossas elites seriam forçadas (ou sentir-se-iam obrigadas) a enveredar por outros caminhos que não o da desvalorização. Pura ilusão...
Os primeiros tempos caracterizaram-se por um esbanjar de recursos recursos financeiros em troca da venda ao desbarato (destruição...) das actividades industriais que possuiamos. Logo a seguir veio a ideia peregrina, e que foi até objecto de alguma controvérsia, de discutir se, no contexto da Eurolândia, Portugal estava mais vocacionado para ser a Florida ou se a Califórnia da Europa. Se bem me lembro, a coisa passava-se mais ou menos assim: se fossemos a Florida da Europa, então isto aqui passava a ser também uma grande estância de férias e/ou de residência definitiva para os reformados mais ou menos ricos da Europa Central e do Norte.
E vá de construir muitas vivendas para mais tarde vender ou alugar...
Se fossemos a Califórnia da Europa, então o mais natural era que muitas empresas de grande dimensão estabelecessem em Portugal centros de investigação e desenvolvimento e que para aqui viessem trabalhar, com os atractivos do clima ameno e de uma melhor qualidade de vida, alguns milhares de profissionais e cientistas altamente qualificados.
Talvez (por osmose?...) alguns dos conhecimentos técnicos desses «profissionais e cientistas altamente qualificados» passassem também para os seus colegas portugueses (trabalhores e quadros). Talvez... Meros sonhos e ilusões que até foram sendo alimentados com alguns exemplos isolados desse tipo de fenómenos.
O problema é que a crise que se abateu sobre todos nós, é uma crise de dimensão global e com sérias repercussões também no seio da União Europeia. Os reformados do Centro e Norte da Europa afinal não fazem fila para se deslocarem para aqui. E as empresas de grande dimensão parece que não se sentem assim tanto motivadas para deslocar para Portugal alguns dos seus centros de maior qualificação profissional. Por outro lado e no que diz respeito a «solidariedade inter membros da União Europeia» é o que se está a ver. E nem sequer se tratava de uma questão de «ajuda aos países de economia mais frágil»... Mesmo do ponto de vista do sistema «deles» tratava-se antes de propiciar aos seus trabalhadores (na Alemanha e nos outros países do «centro» e «norte») condições materiais que os inventivassem a «gastar mais» – muito mais – em países como Portugal ou a Grécia. Seria aquilo a que alguns certamente chamariam de «promoção da especialização funcional geográfica» de cada país...
Como estamos (cada vez mais) numa onda de «cada um por si e o mercado por todos» (dizem eles, para não dizer «salve-se quem puder»...) então, de facto, o melhor é mesmo tratar com a urgência possível de delinear um programa de saída do Euro. E negociar essa saída com a firmeza necessária.



terça-feira, 2 de abril de 2013

CHIPRE - A opinião de um economista heterodoxo, de orientação keynesiana

Sem muitos comentários - e pela sua oportunidade - transcrevo para aqui um breve texto de um blogue de economistas espalahdos por todo o mundo: «Real World Economics»

«Jeroen Dijsselbloem (ministro das finanças da Holanda e presidente do Eurogrupo) fez aquilo que devia ser feito» 
Por Merijnknibbe
Autor participante do blogue da Revista «Real World Economics»

«Chipre está um desastre. A meu ver, foram cometidos muitos erros, por exemplo, durante os anos de expansão de 2004-2007, quando o BCE se recusou a considerar (de modo separado... GFS) os desenvolvimentos em países individuais e, por razões ligadas à teoria económica das «expectativas racionais» (neoliberalismo, digo eu - GFS), equiparou a estabilidade financeira com uma inflação baixa e estável.

E não foi o caso de que ninguém tivesse alertado para isso. Em 2002, Cladio Borio e Philip Lowe (do Banco Internacional de Compensações) alertaram, já em 1992 Wayne Godley tinha alertado. Um subconjunto inteiro de crises económicas recebeu até o nome de Minsky.

Depois da expansão, o BCE falhou ao não implementar taxas de juros reais efectivamente baixas para as famílias e empresas nos países do Sul da Europa – deviam ter comprado muito mais obrigações do Tesouro (daqueles países) e atenção, isso não seria inflacionário numa situação em que o montante do dinheiro M3 na Grécia declinava em cerca de 40%.

Bom, mas não vale a pena chorar sobre triliões estragados. Mas terá Jeroen Dijsselbloem cometido um erro quando afirmou que os depositantes com mais de 100.000 deviam levar uma ripada? Claro que não. Então, por que razão Dijsselbloem levou com toda esta barragem de críticas na imprensa internacional?

Na Irlanda, são os pobres quem, neste momento, aguenta com o pagamento de impostos mais elevados porque os grandes depositantes e detentores de obrigações seniores dos bancos foram ajudados.

Em Chipre, esses grandes depositantes e os obrigacionistas têm que se contentar com “acções Diógenes” (expressão utilizada para referir “acções desvalorizadas”. Nota de GFS).

Então, faço de novo a pergunta: “Por que razão toda gente criticou Dijsselbloem?”»


Notas adicionais de GFS:
1. M3 é o agregado de “moeda” de maior dimensão: Para além das notas e moedas em circulação e montantes de depósitos à ordem, inclui todas as contas de poupanças, depósitos a prazo de menos de 100.000 dólares (...) assim como todos os outros instrumentos monetários como será o caso, por exemplo, de depósitos em eurodólares e depósitos acima dos referidos 100.000 dólares.
2. “Obrigações séniores” são títulos de dívida que têm precedência em caso de falência.
3. Gostava de sublinhar a frase “Na Irlanda, são os pobres quem, neste momento, aguenta com o pagamento de impostos mais elevados porque os grandes depositantes e detentores de obrigações seniores dos bancos foram ajudados”.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sobre a Crise de Sobreprodução...

Escrito em tons de melancolia ao sabor da espuma dos dias...
E algo desapontado com esta chachada toda... É que pregar no deserto cansa...
Entretanto, sonhar (ainda) não é proíbido e para lá de sonhar com o euromilhões haverá também aqueles que sonham com outros tempos e outros mundos, assim como há certamente aqueles a quem não é estranha a frase «o sonho comanda a vida»...
Mas chega de idealismos de «realidades imaginadas» - do tipo retratado no filme Matrix - e procuremos olhar a realidade com que se vão confrontando cada vez mais milhões de famílias por esse mundo.
A mim, às vezes, dá-me para sonhar com um cenário em que as pessoas, em particular aquelas que têm alguma responsabilidade institucional, venham a entender a lógica intrínseca do sistema capitalista.
Que é aquele em que vivemos há várias décadas. 
De há uns anos a esta parte que muitos estudiosos da sociedade, de formação teórica marxista, procuram alertar o mundo para um facto relativamente simples de entender:  estamos todos (o mundo inteiro, o sistema capitalista na sua totalidade) perante uma crise de sobreprodução. 
Mas a realidade objectiva e incontornável é que a esmagadora a maioria das pessoas - aquelas que votam e elegem estes ignorantes e «génios de vistas curtas» para posições de poder político - muito simplesmente não entendem sequer o que significa a expressão  «crise de sobreprodução». 
Se olharmos num qualquer dicionário ou se fizermos uma busca sobre artigos e ensaios publicados onde apareça a expressão  «crise de sobreprodução» ou apenas a palavra  «sobreprodução», verificamos que mesmo em circulos bastante mais esclarecidos há ainda muita confusão, relativamente aos conceitos de causa e efeito, no que diz respeito à Crise.  
Estou aqui a pensar, entre outras, numa confusão do estilo daquela que será evocada pela pergunat tola que alguns pseudo espertinhos fazem quando não têm nada mais engraçado para perguntar, «o que veio primeiro, o ovo ou a galinha»...   
Como deverá ser evidente não é pergunta que se faça seriamente a qualquer aprendiz de Biologia... Entretanto, de vez em quando, vai havendo alguns senhores em posição de destaque no mundo da governação política e das finanças - e que procuram esconder-se por detrás de uma alegada incapacidade da regulação financeira («isto era impossível de prever»...) - que falam em «sistema hiper complexo» (até parece que sabem do que falam...).
Claro que vivemos num mundo hipercomplexo... Mas isso não impede (antes exige) capacidade de análise e de interpretação. E isso significa que se pode (e se deve) seleccionar uma ou duas variáveis específicas, cuja evolução se possa então monitorizar. 
Por exemplo: a «quantidade concreta de coisas» que se vão produzindo; o «poder de compra» que vai estando disponível para comprar («dar vazão»...) a todas essas coisas que se vão produzindo; a(s) taxa(s) de juro(s) praticadas pelos bancos. 
Até aqui são apenas 3 (três...) variáveis...
Podemos acrescentar mais algumas: o «montante do crédito ao consumo» ou o «nível geral do emprego»... 
Depois há também aquilo que alguns analistas chamam de «indicadores secundários»... Como a frequência e dimensão de «Saldos», «Rebajas», «Soldes», «Vertrieb»...
Suspeito que perante uma situação como aquela que vivemos - se isto tudo fosse representado numa peça de teatro escolar - qualquer uma das crianças na plateia, à semelhança daquela criança de «o Rei vai nu...», era capaz de perguntar «e porque é que não produzem menos» ?  
Claro que seria necessário explicar a essa criança que os donos do «teatro» não produziam demais porque fosse essa a sua vontade. Eles só sabiam que tinham produzido demais, depois de o terem feito. 
E que aquilo que aquilo que tinham produzido não lhes interessava, nem muito nem pouco. 
Aquilo que eles tinham querido obter era outra coisa... Uma coisa chamada  lucro.
Mas, continuando a explicar à tal criança, de facto talvez não fosse má ideia produzir um pouco menos.
Para começar a «resolver o problema, claro...
Depois de muitas outras explicações, para as quais não tenho agora muita pachorra, talvez a «minha» criança acabasse por perguntar,
 «QUANDO AS MÁQUINAS FIZEREM QUASE TUDO, O QUE VÃO «ELES» - os donos do Teatro - FAZER COM AS PESSOAS?...»