A situação inicial
Na janela proposta aqui para que se façam «experiências» sobre a possível evolução da taxa de lucro - variável determinante do comportamento de todos os agentes económicos e do sistema como um todo -
Trata-se, naturalmente, de uma situação hipotética que pretende representar um «capitalismo abstracto subjacente ao capitalismo real» de fins do século XVIII. Nisso sigo o autor Ronald Meek (Economics and Ideology and Other Essays, 1967).
Temos então que o capital total à disposição do «capitalista colectivo» aparece aqui como sendo constituído por 12.000 «unidades».
Estas 12.000 «unidades», tanto podem ser expressas sob a forma de «o resultado acumulado de uns tantos milhares de horas de trabalho» como «X toneladas de "alimentos" mais Y «unidades de ferramentas».
A relação aqui assumida - nesta hipotética situação inicial - é a de 1 (uma) unidade de «capital-máquina» (ou capital constante) para 5 (cinco) unidades de capital-pessoas (ou capital variável).
Presume-se também que o colectivo das pessoas trabalhadoras, trabalhando 10 horas por dia, produz o suficiente para que esse «colectivo» se mantenha vivo e activo, assim como o suficiente para a sua reprodução geracional, e ainda mais «alguma coisa» que reverte para os «capitalista colectivo» (ou «factor capital»).
É a esse excedente (que reverte para o «capitalista colectivo») a dividir pela totalidade (as tais 12.000 «unidades») inicialmente «investida» que se chama aqui «taxa de lucro sistémico».
O qual «lucro sistémico» é depois disfarçado, camuflado e recoberto de mil roupagens e maquilhagens de cosméticas pseudo-financeiras, ao ponto de se travestirem prejuízos sistémicos em lucros bolsistas.
Houve um dia em que um meu amigo (professor universitário de matemática) depois de «olhar para isto» fez «quase de imediato» a observação (ou algo assim...) de que «a solução para o sistema funcionar equilibradamente, era reduzir os tempos de trabalho»
Agora procurem lá explicar isto aos «economistas» CONVENCIONAIS que nos desgovernam. Ou então, procurem explicar o significado da expressão: «actuar na conjuntura tendo em conta a estrutura do sistema»
E depois disto, começo a pensar que é mais fácil explicar as minudências da mecânica quântica, o «entrelaçamento das partículas subatómicas» ou a experiência da suposta «dualidade partícula-onda», do que explicar estas coisas da economia política.
Se calhar o Lénine é que tinha razão: para perceber isto tudo, se calhar, primeiro é preciso estudar a «Ciência da Lógica» de Hegel...
Os «economistas» CONVENCIONAIS que nos desgovernam percebem tanto de Economia como os doutores da Santa Madre Igreja que condenaram Galileu percebiam de Astronomia...
segunda-feira, 13 de maio de 2013
sábado, 11 de maio de 2013
A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 5
Para
concluir os esclarecimentos...
Com
base nas indicações feitas nas mensagens anteriores espera-se que
os observadores deste blogue – quaisquer outros visitantes –
sintam interesse em «brincar» com o (MUITO) rudimentar
modelo aqui proposto.
Reproduzo
aqui, de novo, o gráfico inicial – que é o resultado de uma
«simulação» efectuada. Podem experimentar outros números, mas
atenção que uma casa centesimal (estamos a falar de efeitos ao
longo de muitas décadas) pode fazer toda a diferença.
Assim,
nesta simulação, considerei que haveria (teria havido...) ao longo
dos dois últimos séculos uma taxa média de refluxo de 1,5% (ano,
após ano...); um impacto (ou crescimento) médio de 2,8% na
produtividade agregada e uma taxa de destruição de valor
(«ocasional»... as guerras...) de 25%.
No
gráfico aqui exibido pode ver-se a situação subjacente à
ocorrência de graves crises sistémicas em intervalos variáveis,
mas também com alguma regularidade. Um historiador poderá pensar
aqui em anos de referência como «1840«, «1875», «1929» ou
«1975»...
Ou
então lembrar a famosa «Onda de Kondratieff».
Tanto
quanto eu saiba, o único economista que considerou a
hipótese de a oscilação da taxa de lucro estar
subjacente à «Onda de Kondratieff» foi Ernest Mandel. De resto não
encontrei mais qualquer referência na literatura consultada.
Claro
que faltaria MUITO para melhorar este modelo.
Mas
com os meios disponíveis (e a carolice de um voluntário em
«part-time» esporádico) é o que se pôde arranjar. Nesse
contexto não posso deixar de registar o meu agradecimento ao meu
amigo e ex-colega de estudo António Figueras, (doutorando em
Ciências da Complexidade), pela disponibilidade e trabalho efectuado
na programação do modelo aqui apresentado.
Coisas
mais que se possam via a fazer...
Desde
logo, afinar os critérios que levam o sistema programado a
despoletar um subprocesso societal de «destruição de valor»...
Um
outro aspecto a considerar seria a hipótese de programar como simular os «mecanismos
de atenuação ou "fuga do abismo" da queda da taxa de lucro». De facto, no mundo
real do muito complexo entrelaçamento entre a Economia e as
Finanças, tem havido muitas técnicas para obviar aos efeitos
imediatos – no rendimento dos «donos do Capital», de modo a «adiar
o mais possível o inevitável».
Por
outro lado, adoptar antes a abordagem da modelação com base em
agentes ("Agents Based Modelling") em que os diversos agentes heterogéneos,
tivessem apenas em comum a «função de utilidade» (maximização
do seu benefício pessoal) sujeita (ou constrangida) a
esta lógica aqui programada.
Mas
haverá mais coisas que outros poderão sugerir, depois de entenderem
as idéias que lhe estão aqui subjacentes.
Para
concluir, uma coisa que ainda me vai surpreendendo (?...) é o facto de não
ter ainda surgido um candidato a doutoramento em Ciências da
Complexidade que se queira meter a elaborar uma Tese sobre esta
temática.
Já houve prémios «Nobel» em Economia por «avanços» muito menos significativos na compreensão dos fenómenos económicos
Mas,
seja como for, ou por outro lado, está-me a chegar a fase da «cana
de pesca». Estou disponível para comprar uma e começar a sentar-me
nas rochas junto à praia, aqui a uns 500 metros de casa...
Não haverá por aí ninguém que queira vender uma cana de pesca usada?
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 4
Quase
a acabar (estes esclarecimentos...)
Considera-se
que – em última análise – a totalidade da sociedade humana se
pode «resumir» a dois grandes grupos de agentes económicos. Estou
a falar de «modelos representativos», «arquétipos» ou «entidades
abstractas» que no entanto se corporizam em pessoas e instituições
concretas.
A
sociedade humana como um todo, na sua interacção com a Natureza,
dispõe de dois tipos de instrumentos, meios ou «ferramentas». Por
um lado será o «capital
acumulado» (sob a forma de máquinas, tecnologia – ou
saber acumulado - estruturas fabris diversas e outras
obras de engenharia vindas do passado); por outro lado será o
«capital vivo», a
capacidade que os seres humanos vivos têm de trabalhar e produzir o
que quer que seja.
No
modelo que aqui se procura explanar, ao capital acumulado chamamos de
«capital constante» (ou «constant
capital») e ao capital vivo chamamos de «capital
variável» («variable
capital»).
Em
cada ciclo de produção (anual, por exemplo...) todos e cada um dos
membros «adultos» da sociedade humana está em permanente processo
criativo. Daí resultam (têm resultado...) permanentes melhoramentos
sobre as «formas de trabalhar» nos mais diversos tipos de
actividade. São os ganhos de produtividade.
No
modelo que aqui se procura explanar, na sequência de cada ciclo de
produção (de tudo e mais alguma coisa) considera-se que alguma
parte do excedente produzido reflui (regressa ou retorna) para o
sistema sob a forma de «investimento» e que nesse investimento há
ganhos de produtividade.
A
esses ganhos de produtividade chama-se aqui «impacto
sobre o "capital constante"» e
«impacto
sobre o "capital variável"».
Presume-se
que cada agente representante do "capital variável"
dispondo embora de 24
horas por dia, dedica no entanto «apenas» 10 horas por dia a actividades de
«transformação» da Natureza ("virgem"
ou "já parcialmente transformada").
Em
rigor, a lógica do sistema acaba por ser a mesma, quer se trate de
10 horas por dia quer se trate de 5 ou 6 horas de trabalho por dia...
Um
outro aspecto a considerar será a relação entre «trabalho
necessário»
(à «reprodução
social») e
«trabalho
excedente»
(aquele que PODE
reverter
para o processo de acumulação).
São
estas as variáveis fundamentais da «camada geológica» (pouco ou
nada visível) do sistema económico. A lógica daquilo que se passa
a esse nível é determinante e condiciona tudo o mais que se possa
passar nas «camadas superiores» (o subsistema dos preços, as
instituições, as finanças, a governação...) do sistema económico
global.
Num próximo e ultimo esclarecimento (para já...) espero indicar como tudo «isto» tem a ver - ou está implícito - no modelo aqui desenvolvido.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 3
Continuação...
Nas
sociedades que hoje consideramos «antigas» ou «primitivas» o
processo de «acumulação» era naturalmente elaborado pelas
colectividades como um todo, cada uma sob a direcção de um «chefe»,
fosse ele um «rei», um «imperador» ou outra coisa qualquer.
Para
efeitos desta explanação, digamos que a partir de certa altura –
e de modo diferenciado em cada sociedade humana – o processo de
acumulação passou a beneficiar uns grupos em detrimento de outros.
Ou então beneficiando mais uns grupos sociais do que beneficiava
outros grupos dentro da mesma sociedade. Podemos também assumir (ou
supor) que alguns grupos sociais dentro de algumas sociedades
conseguiam impor, a outras sociedades «estrangeiras», a entrega dos
seus excedentes, no todo ou em parte. Para o efeito era preciso fazer
alguma forma de expansão territorial, normalmente acompanhada de
expansão demográfica.
Mas
isso da expansão geográfica e demográfica é aqui e para já (para esta
explanação), pouco relevante.
O
que importa aqui considerar é que a partir de determinada altura
alguns dos grupos de «agentes económicos» que se iam apropriando
dos excedentes produzidos no seio de cada sociedade como um todo,
autonomizaram-se (nesse processo de apropriação) relativamente aos
«chefes», «reis» ou «imperadores» que até aí tinham sido os
«agentes» preponderantes nas decisões de produção de excedentes
e sua apropriação (colectiva ou pessoal). Estou aqui a pensar em
canais de irrigação assim como em fábricas (manufacturas reais) e
criação conjunta de companhias magestáticas por parte de alguns
«soberanos» e grupos de mercadores.
Essa
autonomização veio a dar origem a um predomínio – hoje absoluto
– de um determinado conjunto de regras que determinam o modo como
se joga a interacção entre, por um lado, a sociedade humana com a
Natureza e, por outro lado, entre dois grandes tipos de «agentes
económicos».
Relativamente
à interacção entre a Humanidade e a Natureza pouco há a dizer
aqui, a não ser chamar a atenção para o facto de que o crescimento
ilimitado (porque também é disso que se trata) num planeta com
claros e bem determinados limites físicos é simplesmente impossível
a partir de uma determinada fase do processo de acumulação.
Se
estamos perto ou ainda longe de alcançar esses limites é algo que
aqui não interessa para efeitos desta explanação. Apenas se
presume aqui que o processo de acumulação continua através da
apropriação e transformação de parcelas da Natureza, por parte
dos diversos grupos sociais.
Por outras palavras, é ao mais profundo nível de abstracção, e tendo em linha de conta apenas a produção e distribuição de «coisas com valor» que se deve proceder a esta análise. A questão da expressão monetária desses valores (ou seja, o «dinheiro»...) não entra aqui nestas considerações.
São questões importantíssimas mas devem ser discutidas a outro nível de análise.
(para continuar...)
A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS - 2
(continuação...)
Ao
longo dos milénios, desde tempos imemoriais, todos os grupos humanos
sempre tiveram a possibilidade – ou a capacidade – para produzir
mais do que o necessário para a sua própria reprodução como
espécie biológica.
Podemos
mesmo dizer que a humanidade é a única espécie biológica que tem
essa capacidade. Todas as outras espécies limitam-se a reproduzir-se
enquanto tal. De certa forma, todas trabalham. Mas só a humanidade
realiza «trabalho excedente».
No
caso das muitas espécies animais todas elas fazem «trabalho» no
sentido de que aplicam a sua força ou energia na transformação (ou
deslocação) de matéria. No caso dos herbívoros, na busa de
vegetais apropriados à sua alimentação. No caso de carnívoros, na
caça de herbívoros. Em todos os casos na procura e/ou construção
«pré-programada» de ninhos, covis ou outros refúgios.
No
caso da esécie humana, no entanto essa aplicação de trabalho (ou
energia) na transformação (ou deslocação) de matéria segue-se a
uma resolução e acaba sempre por ter objectivos ou finalidades que
ultrapassam a mera reprodução.
Ao
longo dos milénios alguns grupos humanos, no entanto, têm-se
limitado a «gosar a vida», trabalhando apenas o suficiente para se
reproduzirem enquanto grupo social, dedicando o resto do tempo
actividades conscientemente culturais de recreio e lazer. Mas a
grande maioria dos grupos cedo começou a acumular. Desde a China e
Japão, até às Américas, passando pela Índia, Indonésia, «Médio
Oriente, Egipto, Etiópia e resto de África, são hoje ainda
conhecidas enormes obras de engenharia civil que testemunham essa
capacidade de produção de excedentes. Estou não só a referir-me a
coisas como pirâmides e palácios e templos, mas também a sistemas
de irrigação e de arroteamento e demarcação de terras. O
resultado natural dessas manifestações do trabalho excedente de
muitas gerações, designa-se então por «acumulação».
Os
conceitos aqui a reter, para já, são as noções de «trabalho
necessário» (à reprodução de cada grupo social), «trabalho
excedente» (para além da mera reprodução) e «acumulação».
(continua)
A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 1
Em
primeiro lugar é preciso salientar que esta temática da «queda
tendencial da taxa de lucro» está para o estudo do sistema
capitalista como o estudo da «força da gravidade» está para a
Física. Tal como na Física há uma série de minudências que fazem
a radical diferença entre a teoria de Newton e a teoria de Einstein,
também aqui as minudências são mais do que muitas.
Tanto
quanto eu saiba, a «coisa» começa por ser assinalada por Adam
Smith (se calhar ainda antes disso...). De facto aquele autor de fins
do século XVIII já se referia a essa tendência para uma queda da
taxa de lucro em determinadas fases da evolução do sistema
capitalista. Ou seja, a «coisas» começa por uma
observação empírica.
Só
depois é que vêm as tentativas de explicação teórica.
É
também preciso salientar que esta temática tem sido objecto de
centenas de artigos, ensaios, «papers», comunicações a
congresssos, teses de doutoramento e, claro, muitos livros.
Alguns
observadores do blogue fizeram-me chegar por «email» dúvidas
e pedidos de esclarecimento relativamente ao gráfico sobre a
oscilação recorrente da taxa de lucro e evolução aos solavancos
do nível (volume) geral do emprego. De facto, a «coisa»
apresentada assim «a seco» é capaz de causar muitas confusões,
dúvidas e perplexidades do tipo «de
que é que este senhor está a falar?»....
Tudo
isto tem que ser visto considerando a Humanidade e seus recursos na
sua totalidade: 7.000 milhões de pessoas ocupando um planeta e
fazendo o aproveitamento dos recursos naturais do planeta e da sua
capacidade de trabalhar, segundo determinadas regras.
(continua...)
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Ainda - e mais uma vez - o Comportamento da Taxa de Lucro
Tenho
dito, escrito e repetido que a
taxa de lucro está para o sistema capitalista como a força de
gravidade está para o planeta Terra, ou que como as cenouras para os
coelhos ou o agitar do pano vermelho para os touros...
Isto parece mania, mas não é...
Também
costumo citar Kurt Lewin (famoso sociólogo norte-americano de origem
germânica e refugiado aos nazis) quando ele dizia que «não há nada
mais prático do que uma boa teoria».
Por
outro lado, todo e qualquer empresário pode confirmar que só se
justifica fazer investimentos – e
não aqui estou a falar de «aplicações financeiras» (mania que
alguns comentadores e jornalistas têm de chamar «investidores» a
pessoal que gere essas aplicações financeiras»...)
- se as perspectivas de lucro forem suficientemente atractivas.
Assim
sendo pareceria razoável que os dirigentes de um qualquer país
prestassem atenção aos sinais que venham das «profundidades»
(mais ou menos invisíveis) da economia real. Designadamente o
comportamento da taxa de lucro.
Ao
longo dos últimos 34 anos tenho dedicado parte do meu tempo a
estudar esta temática – o que me levou por uma enormidade de
leituras dos mais diversos autores e a algumas interessantes
discussões sobre a viabilidade (ou não) de demonstrar uma alegada
queda tendencial da taxa de lucro e de comprovar (ou não) a sua
razoabilidade e aplicabilidade aos dados históricos empiricamente
verificados.
Entretanto - e para que conste - o
trabalho cujos resultados apresento mais abaixo não teria sido
possível sem a preciosa (ou inestimável) colaboração de um colega
do programa doutoral em ciências da complexidade do ISCTE e da FCUL.
Por outro lado, há
umas semanas atrás solicitei a um grupo de leitores com quem esta
questão tem sido discutida, alguma opinião crítica sobre a
legibilidade do gráfico que aqui se apresenta.
Passo
a esclarecer:
Se
a taxa de lucro funciona simultâneamente como «motor» e
«indicador» da dinâmica de investimento, já o nível geral de
emprego funciona, quer como indicador da «saúde» do sistema
económico, quer como indicador da expansão e retracção, ou seja,
da dimensão do sistema como um todo.
A
respeito da queda tendencial da taxa de lucro, escrevia Keynes o
seguinte:
«Mas
pior ainda. Não só a propensão marginal para o consumo é mais
fraca numa comunidade rica, mas, devido ao facto de que a sua
acumulação de capital ser já maior, as oportunidades de mais
investimento são menos atraentes a menos que a taxa de juro desça a
um ritmo suficientemente rápido»
Qualquer
observador das coisas das finanças sabe que as taxas de juro dos
bancos centrais estão perto do zero (ou mesmo
negativas, se levarmos a inflação em linha de conta). Ou seja, há
muito tempo que a taxa de lucro deixou de funcionar como incentivo ao
investimento real.
O gráfico apresentado mais abaixo, apresenta o comportamento do sistema nas duas variáveis aqui consideradas: a taxa de lucro e o nível de emprego.
Considerei aqui uma taxa anual de refluxo (aquilo que reflui para o sistema sob a forma de investimento real) de 1,5% com impacto sobre a produtividade agregada de 2,8% e uma taxa de destruição periódica de 25% do «valor acumulado» (capital fixo e capital constante)1,
Considerei aqui uma taxa anual de refluxo (aquilo que reflui para o sistema sob a forma de investimento real) de 1,5% com impacto sobre a produtividade agregada de 2,8% e uma taxa de destruição periódica de 25% do «valor acumulado» (capital fixo e capital constante)1,
A simulação aqui reproduzida contempla 210 anos (foi
em 1803 que foi inaugurada a primeira linha de caminhos de ferro e
apresentado o primeiro barco a vapor...) de
evolução teórica (nos
circuitos electrónicos de um qualquer computador...).
Como
não disponho dos meios necessários e suficientes para isso, tenho
mesmo que deixar ao cuidado de eventuais historiadores e economistas
menos ortodoxos, a eventual tarefa de documentar e comprovar (ou não)
a aplicabilidade disto tudo à história económica dos últimos
séculos.
Era capaz de dar um bom terreno para teses de doutoramento...
Era capaz de dar um bom terreno para teses de doutoramento...
Na
espécie de simulação que qualquer pessoa se pode entreter a experimentar qualifico a destruição periódica de valor acumulado como «Factor
Potlatch».
A
razão é simples: «potlatch» era um cerimonial dos povos do
Noroeste da América do Norte em que eram destruídos e/ou consumidos
excedentes económicos em ritos de grande ostentação – uma
especie de desafio a ver quem era «mais rico». Tais cerimónias
foram proíbidas pelos governos dos Estados Unidos e do Canadá já
em princípios do século XX.
Moral da história: Se «isto» corresponder à realidade dos factos - ou seja, se a tese da queda tendencial da taxa de lucro estiver correcta ou se for possível comprová-la por observação empírica ou pelos registos históricos - então bem podem clamar por «mais empreendedorismo», por «mais financiamento à economia» e por muitos e variados «incentivos» que o «bicho» mexe»...
Quando muito vai-se arrastando.
Quando muito vai-se arrastando.
Uma outra conclusão - e já muita gente diz isso - se o gráfico acima representar minimamente a realidade económica, então os cerca de 10 milhões de empregos perdidos nos últimos cinco anos só na Europa (diz a OIT...) só voltam a ser recuperados daqui a mais uns vinte anos...
Clique aqui para ir ao sítio da experimentação.
1Estou
aqui consciente da sobreposição destas duas categorias
analíticas...
terça-feira, 30 de abril de 2013
Um 4º apontamento sobre a «Ratoeira da Dívida»
Ou de como estamos emaranhados
numa teia peganhenta e atolados num pantâno de areias movediças
Dizem
os economistas convencionais (e com razão) que o processo de
endividamento em si mesmo é eficaz para o funcionamento da economia.
A questão agora está no uso da dívida e, sobretudo, no uso da
dívida como instrumento de controle político.
Neste
contexto a dívida é cada vez mais vista como um garrote que impede
a circulação de bens e serviços ou como uma qualquer barra
metálica encravada nas rodas dentadas da economia e que a impede
de funcionar com um mínimo de eficiência sistémica.
Dada
a dimensão e a (dis)funcionalidade desta dívida, o seu «serviço»
(em rigor uma espécie de tributo a pagar a novos senhores feudais)
funciona cada vez mais como um aspirador gigantesco que vai sugando
sem fim o dinheiro que faz falta à economia, quer nas suas funções
de lubrificante, quer nas suas funções de comburente, do sistema de
trocas que é a economia.
Mas
adiante.
Essa
teia embrulhada de «crédito-dinheiro-dívida»
foi
criada por «meia-dúzia» de banqueiros e seus executivos que
«levaram à certa»» alguns milhões de incautos e, em resultado
disso, todos nós como sociedade (a titulo individual ou em grupo,
por acção ou omissão - mas
também contra os protestos e alertas atempados de alguns!... ),
temos agora que arcar com as «culpas» e consequências da
irresponsabilidade criminosa de quem consentiu nessa criação
privada e incontrolada de «crédito-dinheiro-dívida».
Os
muitos «títulos de dívida» (dinheiro sob a forma de saldos em contas
bancárias), esses estão registados primordialmente no sistema
mundial «offshore» controlados a partir da «City of
London» e de «Wall Street», com algumas filiais e
ramificações por esse mundo fora.
Esse dinheiro, que anda a ser
emprestado, começou por fugir dos países «a sério» para os
refúgios fiscais que constituem o sistema mundial «offshore» .
Isto,
esta primeira tentativa de explicação de qual a origem da «Dívida»
é válida para a sociedade capitalista como um todo.
Aquilo a que
agora se chama cerimoniosamente (digo eu, que às vezes me dá para o
cinismo...) «capitalismo selvagem».
Um
primeiro ponto a reter e que é válido para todos os países.
Independentemente
dos montantes envolvidos, uma parte (pelo menos
um terço?...) desse dinheiro é
nosso.
Foi
dinheiro defraudado (roubado)
ao(s)
Estado(s)
(e por tabela aos seus
cidadãos) para depois
lhes
vir a ser emprestado.
Uma nota: o resto desses dinheiros vem, em parte, da injecção de liquidez no sistema bancário comercial, por parte do BCE e também de alguns «investidores institucionais» como sejam os «fundos de pensões». Mas isso ficará para outros apontamentos.
Com base no relatório da associação Tax Justice Network «The Cost of Tax Abuse – A briefing paper on the cost of tax evasion worldwide»1 indico em seguida e de modo resumido a situação estudada por aquela organização.
Com base no relatório da associação Tax Justice Network «The Cost of Tax Abuse – A briefing paper on the cost of tax evasion worldwide»1 indico em seguida e de modo resumido a situação estudada por aquela organização.
Perdas
de Impostos devido a evasão fiscal
A
Espanha tem estado a perder anualmente verbas próximas de 107.000
milhões de US$. Em Portugal, a Autoridade Fiscal e Aduaneira tem
estado a perder anualmente verbas próximas de 23.000 milhões de US$
ou seja, o equivalente a 10% do PIB. Anualmente...
Os
números acima referem-se a estimativas para o ano de 2010. E não dizem só respeito - de todo - à «economia dos pequenos biscates» (mais tarde, numa outra mensagem espero voltar a isto...).
Não terá
sido sempre assim, e é razoável presumir que a situação se tem
estado a agravar ao longo dos últimos 20 anos. Quer isto dizer que,
numa estimativa grosseira (mas certamente que não muito longe da
realidade), que o total de dinheiro que, ao longo dos últimos 20
anos, deixou de entrar nos cofres do Estado por via da evasão fiscal
em Portugal é muito capaz de rondar o equivalente
a 160 mil milhões de dólares.
Ou seja o equivalente a cerca de 70%
PIB e de 60% da dívida soberana.
Conclusão:
se o Estado tivesse tido a capacidade para controlar aquela evasão
fiscal, a «nossa» dívida pública seria algo como 50% do PIB... Um
luxo!
A este respeito, como diria um famoso economista «prefiro mais estar vagamente certo do que exactamente errado»...
Mas atenção!
Nada
disto inclui os montantes referentes a «evitação» ou
«optimização» fiscal, legal, autorizada e cada vez mais
encorajada pelos Estados que fazem concorrência entre si para
«atrair investimentos»...
É
a chamada competitividade fiscal.
A
tal a que se refere de modo tranquilo o sr. Álvaro Pereira – que
vai estando «ministro da economia» – quando fala em reduzir o
IRC...
Nota:
No caso específico da «optimização fiscal» a própria designação
sugere a busca permanente de alternativas sobre «onde registar ou
declarar custos e benefícios», por parte dos chamados «chief
financial officers» (comheci vários...) das empresas
transnacionais, de modo a minimizar os impostos a pagar em qualquer
parte.
1Disponível
em
http://www.tackletaxhavens.com/Cost_of_Tax_Abuse_TJN%20Research_23rd_Nov_2011.pdf
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Um terceiro apontamento sobre a «Ratoeira da Dívida»
A
propósito do papel funcional da dívida.
Em
primeiro lugar, sem a existência da ideia e da práctica da dívida
não haveria processo de acumulação económica nem tinha havido o
processo de evolução social e económica historicamente verificado.
Portanto, à primeira vista «a dívida é uma coisa boa»...
Só
que o modo de pensar dialécticamente já nos devia ter ensinado que
as coisas não sempre «boas», nem são sempre «más»...
Tudo
depende do grau da evolução histórica, da fase dessa mesma
evolução, assim como do próprio grau ou «densidade» específica
da dívida (se é de mais ou se é de menos...).
Se
a dívida é de mais passa a ter outras características
funcionais. Deixa de ser benéfica para o funcionamento minimamente
equilibrado do sistema (mesmo quando parece ser uma «bóia de
salvação») para passar a ser contraproducente. Como se está a
ver, ao travar quaisquer hipóteses de recuperação da economia.
Qualquer
estudante de engenharia (ou de sociologia), que tivesse feito uma
cadeira de «teoria geral de sistemas» podia, há muito tempo, ter
explicado isto aos senhores da «toika» (ou da «quadrilha» para
utilizar a feliz expressão de Pacheco Pereira).
A
actual dívida soberana, pela sua dimensão e especificidades (os
tipos de credores e o destino ou aplicação que é dada aos
«reembolsos» que vão sen efectuados – a compra de mais «títulos
de dívida» ou «obrigações do tesouro») tornou-se simplesmente
absurda, aberrante, impagável e contraproducente. O instrumento de
crédito/dívida deixou de ser funcionalmente útil para passar a ser
um garrote que impede a economia de simplesmete redspirar,
quanto mais recuperar e crescer.
É
por isso que cada vez mais vai havendo notícia de um número
crescente de economistas (os não convencionais...) que vão chamando
a atenção para a necessidade de anular a dívida. Em parte, de modo
selectivo, ou mesmo na sua totalidade.
Apenas
a título de exemplo (e para quem entenda bem o Inglês) remeto aqui
para uma entrevista no bem conhecido programa «HardTalk» da
mais que insuspeita BBC, realizada em 2011, com o economista
australiano Steve Keen.
Já
o antropólogo David Graeber, por exemplo, assinala a recorrência
histórica ao longo de séculos daquilo a que, a propósito do
movimento internacional por ocasião do Ano 2000, se convencionou
chamar (de novo...) «Ano do Jubileu», querendo com isso
significar o ano da anulação das dívidas, tal como já vinha
referido na Biblia e era também praticado nas antigas civilizações
do Oriente e do Médio Oriente.
Para
muito boa gente (e até gente bem colocada para saber do que fala) a
melhor saída para este imbroglio (eventualmente até a única
saída...) acabará por ser:
- A anulação da dívida (ou grande parte
dela),
- A nacionalização da banca (e falência «controlada»
dos bancos insolventes).
e depois,
- Recomeçar de
novo.
No entanto, isto é o que recomendam esses alguns economistas heterodoxos e não convencionais,
esquedendo no entanto que a História (contrariamente ao que se possa
pensar) não se repete e que não vai ser possível «recomeçar de
novo» sem profundas alterações nas «regras do jogo».
Há
quem lhe chame Revolução.
Outros preferem talvez «evolução
acelerada» ou apenas «reformas MUITO profundas»...
Seja
como for, «isto assim não pode ficar».
Vai ser preciso cortar cerce o garrote que impede as economias de respirar...
domingo, 28 de abril de 2013
Apontamento sobre os contratos «SWAP»
Estou aqui a tentar perceber qual a racionalidade ou lógica de gestão empresarial que terá levado os senhores gestores das empresas de transportes públicos a assinar contratos de troca de risco relativamente aos juros a pagar pelos empréstimos de que precisavam para as operações daquelas nossas empresas.
Dizem alguns analistas - designadamente o do jornal «PÚBLICO» de hoje - que os contratos de troca até podem ser muito úteis.
Duvido...
E os resultados estão à vista.
Se
pensarmos bem nisso deviam era ser muito estritamente regulados. E na
ausência de uma regulação eficaz e rigorosa, deviam mesmo ser
proíbidos. Desde logo porque legitimam a ideia de que há uns
senhores - na banca - que se podem constituir numa «casta de esclarecidos»
(uma espécie de «insiders» privilegiados) porque sabem mais
do que todos os outros sobre a evolução futura das taxas de juro ou
das taxas de câmbio ou das subidas e descidas dos preços disto e
daquilo... Ou seja, os gestores responsáveis pela gestão financeira são supostos ser uns «tadinhos» menos competentes e que precisam da assessoria técnica por parte daqueles «insiders».
Para não dizer que fica também legitimada a ideia
peregrina de que «há honra entre os ladrões» do estilo «ou há
moralidade ou comem todos». De facto, pelos vistos, «eles vão comendo tudo e todos» e o
que querem mesmo é que não haja supervisão que impeça as suas golpadas.
De
certa forma era isso mesmo – uma supervisão e regulamentação
rigorosa e eficaz aquilo porque se bateu a sra. Brooksley Born quando
era presidente da «CFTC – Commodity Futures Trading
Commission».
Muito natural e significativamente foi derrotada pelos defensores
da «falta de transparência», a qual lhes permite continuar com
estas golpadas em todo o mundo.
Em
rigor, os senhores defensores do paradigma neoclássico (que no plano
ideológico sustenta a praxis do neoliberalismo) deviam ser os
primeiros a procurar regulamentar com todo o rigor a transparência
nesse tipo de negociatas justamente com base nos pressupostos da
igualdade no «acesso à informação».
Mas,
em todo o caso, falar aqui de paradigma é algo de abusivo. O
conceito de «paradigma» implica a ideia filosófica de conhecimento
ciêntífico; e isso é algo de que a escola neoclássica está cada
vez mais longe. Uma ideologia matemáticamente pura, como não me
canso de repetir citando o Prof. Alan Freeman.
Seja como for, cheira-me que há aqui algo por explicar (muito mais coisas certamente, mas para já contentar-me-ia com isto):
Como é que a «compra de activos tóxicos» (por parte daquelas empresas) se encaixa na troca (ou seguro) de risco de alteração das taxas de juro (negativa ou desfavorável para os "nossos" gestores das nossas empresas públicas)?...
O
que é que uma «coisa» tem a ver com «outra»?...
Os
senhores que se apressam a dizer – mas não a explicar – que os
contratos «swap»
(uma troca de risco "pelo seguro"...)
são uma coisa que até pode ser muito útil na gestão dos negócios
correntes de qualquer empresa, deviam também esclarecer os seus
leitores sobre isso.
Tanto
quanto eu saiba, as alterações ou oscilações nas taxas de juro
(indexadas à LIBOR) nunca têm sido de uma qualquer ordem de
grandeza que justifique perdas de dezenas de milhões de euros a
partir dessas variações. Ou então a estória está MUITO mal
contada.
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