quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Propósito da Crise de Sobreprodução

Eu sei – ou imagino – que nesta fase da evolução das sociedades capitalistas deve ser dada primazia à intervenção directa. «Agitar», «ir a manifestações», «mobilizar e esclarecer»... Mas cada coisa tem o seu tempo e o seu lugar e, em todo o caso, um bocadinho de teoria nunca fez mal a ninguém.

Já tem sido assinalado repetidas vezes que estamos, desde há uns anos a esta parte, a viver em plena «crise de sobreprodução». Se me é permitido algum sarcasmo, mas considerando que estas coisas da economia devem sempre ser estudadas a partir da totalidade sistemica (o capitalismo como um todo à escala planetária) poderíamos também chamar a atenção para o facto que, de um ponto de vista das funções sistémicas dos diversos tipos de actores económicos, ao longo dos últimos anos o sistema produziu também um excesso de trabalhadores.

Será uma perspectiva «invertida» (o outro lado da moeda) do nível de desemprego a que se assiste em todo o mundo: «há trabalhadores a mais»... (Mas também «consumidores a menos»)

No passado histórico – de há uns séculos a esta parte – as saídas para as crises de sobreprodução têm sido sistematicamente as guerras e/ou a expansão geográfia e/ou demográfica (a dimensão dos mercados!...). Estas saídas têm estado sempre entreligadas. Mas (repito...) de um ponto de vista sistémico, e considerando as funções que cada parte componente desempenha no funcionamento do sistema como um todo, aquilo que todas estas saídas têm em comum, é a destruição de valor excedente entretanto produzido.

E digo «valor excedente» referindo-me a todo o valor «acumulado» e não absorvido pelo sistema no seu funcionamento regular ou normal, ou ainda segundo a sua própria lógica de incentivo à acumulação, mais do que ao consumo1.

Essa destruição de valor excedente assume (e tem assumido) várias formas, desde a destruição de «bens de produção» até à destruição de «bens de consumo». Exemplos concretos dessa necessidade de destruição de «valor excedente» (para resolver qualquer crise de sobreproduçao, tivemos a queima de sacos de café no Brasil dos anos Trinta do século passado, até às guerras de destruição de maquinaria e estruturas físicas acumuladas e, de certa maneira, passando também pelos «saldos» e «promoções» por esse mundo fora. De um ponto de vista do sistema orgânico que é a sociedade capitalista, tudo isso funciona como uma «purga» que se tornou necessária para «libertar» o sistema de tudo aquilo que é suposto «estar a mais» e «pôr a funcionar de novo» os diversos circuitos do sistema.

Entretanto, no caso da destruição de «máquinas» e do ponto de vista de cada capitalista, o que é mesmo bom é destruir as «máquinas» dos outros. É também por isso que temos tido a pressão capitalista para as guerras de «conquista», mas sobretudo de «destruição», por parte dos «capitalistas nacionais». Tal pressão era mais notória (ou mais descarada), enquanto as manifestações do sistema capitalista estavam ainda algo confinadas ao controle de distintos Estados nacionais soberanos.

Para continuar, (se...) pois receio que «isto» esteja exposto de maneira demasidamente abstracta...Mas, como é natural, deixo isso à avaliação e critério crítico de eventuais leitores. )

Seja como for, «isto» ainda vai dar para uns parágrafos de um livro em gestação muito lenta...

1Como é do conhecimento comum, o incentivo ao consumo surge depois do incentivo primário de acumulação. É como que uma resultante de «segunda ordem»... Vem depois. O incentivo à acumulação surge primeiro como imposição categórica e inelutável e por causa da «livre concorrência» nos mercados não regulados.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Aparentes Paradoxos da Teoria Quantitativa de Dinheiro

Aqui há dias, participando numa aula de uma «universidade senior» para que tinha sido convidado como palestrante (estou sempre disponível para tertúlias e afins para que me queiram convidar! ), um dos presentes colocou uma questão extremamente relevante (e actual...).
Só o adiantado da hora – o espaço utilizado tinha mesmo que fechar - impediu muitas e mais detalhadas explicações.
A questão levantada tinha a ver com os possíveis (ou eventuais) efeitos inflacionários de toda a massa monetária que tem sido criada para «incentivar a economia», assim como os montantes «astronómicos» parqueados no sistema mundial «offshore» e saltitando de refúgio fiscal em refúgio fiscal (os banqueiros chamam-lhes «contas saltitantes»). E alguns dos «seniores» presentes manifestaram uma legítima preocupação sobre o que poderia acontecer se (ou quando) toda essa massa monetária entrar em circulação (ou algo assim...).
A «teoria quantitativa da moeda» convencional diz-nos que o nível geral de preços é determinado («é função de»...) pela quantidade de dinheiro (a multiplicar pela velocidade de circulação da moeda) dividida pela quantidade de bens e serviços disponíveis para venda no mercado.
Este modelo explicativo, ainda que básico (ou rudimentar, dirão os mais sofisticados) tem alguma pertinência explicativa para a compreensão do que está a acontecer.
Todos aqueles mais curiosos destas coisas da economia e da História sabem o que foi a «inflação galopante» dos tempos da Alemanha a seguir ao fim da primeira guerra mundial. Mais recentemente foi notícia a hiper-inflação no Zimbabué. Tudo isso «porque havia dinheiro a mais em circulação».
Perante estes cenários parece perfeitamente normal que cada um se interrogue sobre o que pode acontecer (a todo o instante?...) à «nossa» inflação. Acontece que na tal equação acima referida, temos no numerador a «quantidade de dinheiro» e «velocidade de circulação» e, por outro lado, temos no denominador a «quantidade de bens e serviços disponíveis para venda».
Na situação actual temos que grande parte daquela (alarmante?...) massa monetária acima referida está parqueada (ênfase no «parqueada»...). Por outras palavras, grande parte (impossível saber quanto...) não circula (a não ser em circuito fechado no interior do sistema «offshore»...); ou seja, está parada. E quando circula não é para «ir às compras a qualquer centro comercial».
Por outro lado, no que respeita ao denominador da tal fracção, a quantidade de bens e serviços disponíveis é grande. Muito grande mesmo (vejam-se as promoções e saldos tornados corriqueiros ao longo de todo o ano...). Também em consequência da «crise de sobreprodução» em que estamos mergulhados de há uns anos a esta parte, parece que não haverá grandes razões para temer uma hiper inflação a curto ou médio prazo.
Os indíces de inflação em cada país são calculados com base num determinado «capaz de compras», e são afectados pelo «poder de compra» (a «procura efectiva») da esmagadora maioria da população. Parece que os «ferraris» e «lamborghinis» não entram naqueles cálculos. O poder de compra da esmagadora maioria da poplução está a sofrer cortes de há uns anos a esta parte. Na Alemanha, por exemplo, há uns vinte anos a esta parte que os trabalhadores não sabem o que são aumentos reais dos seus salários. Temos portanto uma quantidade de dinheiro razoavelmente estabilizada em procura efectiva de bens e serviços. Do «outro lado» temos uma quantidade de bens e serviços que até aumenta. É por isso que um dos grandes medos dos empresários é o risco oposto: o de uma deflação!
Entretanto, e para ajudar à complexidade disto tudo, e na medida em que a inflação é uma desvalorização efectiva do «valor» do dinheiro, a inflação joga sempre a favor dos devedores e contra os credores... Também por essa razão, os «nossos» credores não estão muito interessados em vir a despoletar uma hiperinflação, O melhor mesmo (para eles, claro...) é deixar estar todo aquele dinheiro «parqueado» no sistema «offshore». Assim, lá onde está, funciona como uma espada de Damocles que eles não querem que caia no pescoço dos devedores, mas que «nunca se sabe». E, por outro lado, sempre vai entrando pela porta errada (para sair de novo, claro), a  porta da «compra de dívida pública». Funciona assim como uma  forma de chantagem.
A questão fundamental que aqui então se deveria colocar é a de saber quando haverá coragem política para «call off the bluff» («cancelar o blefe» diz-me o tradutor autoimático... rsrsrs).  
Ou seja, riscar o montante da dívida, pelo menos na parte que diz respeito a pura ficção financeira.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Propósito de Desenvolvimento

Não sei como está hoje a situação no «universo académico» no que diz respeito a «Teorias do Desenvolvimento e do Subdesenvolvimento»...
Sei - é uma mera constatação empírica - que os esforços institucionais de «Ajuda Pública ao Desenvolvimento» (dos países menos desenvolvidos por parte dos países mais ricos) ltêm tido resultados pouco mais do que nulos. Já houve mesmo quem, a partir dos países recipientes da "Ajuda" que tenha como que implorado «por favor, parem de nos "ajudar"». Grande parte do crescimento económico - não confundir com desenvolvimento - dos países da África Subsahariana (são aqueles que sou suposto conhecer relativamente melhor...) veio ou teve origem no crescimento exponencial da economia chinesa, o qual crescimento implicou grandes volumes de importações de matérias-primas (a "especialidade" dos países menos desenvolvidos...). Quanto a desenvolvimento, isso já será uma outra história bem mais complicada do que os discursos oficiais de «Ajuda Pública ao Desenvolvimento». Para os mais cínicos, isso da APD até acabou por se converter numa excelente oportunidade de negócios e de aproveitamento dos respectivos fluxos financeiros internacionais.
O desapontamento que se veio a instalar com o falhanço (ou «não sucesso») dos programas de ajuda ao desenvolvimento, desapontamento esse que acaba por transparecer de uma leitura atenta dos relatórios anuais do PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (veja-se a situação em que se encontram os ultra bem intencionados «Objectivos do Milénio», agora que se aproxima o ano referência de 2015...), veio a dar origem a "protestos", "choros" e "lamentações", assim como a alguns esboços de "propostas alternativas»...
Vem tudo isto a propósito de uma conferência - anunciada pelo CIDAC para dia 16 de Janeiro na Fundação Gulbenkian - em que Boaventura Sousa Santos se propõe falar sobre o tema «Do Desenvolvimento Alternativo às Alternativas ao Desenvolvimento».   
É muito capaz de valer a pena!


    

domingo, 29 de dezembro de 2013

A Propósito da Troika e de Keynes

A historiadora Raquela Varela publicou recentemente no blogue «5 Dias Net» http://blog.5dias.net/ uma mensagem sob o título «A Troika não erra, Keynes sim».
É interessante ler, mas sinto que será necessário chamar a atenção para algumas discrepâncias...
A resposta que se me oferece é esta:
«Em primerio lugar esclareço que não tenho propriamente a ideia de «defender Keynes»… 
Mas factos são factos e a história das ideias é a que é.
Keynes «limitou-se» a fazer uma síntese de muitas ideias que já andavam no ar. Kalecki elaborou antes dele uma teoria em tudo similar, mas como era Polaco, não teve a repercussão que teve Keynes. Hitler fez de facto uma política «keynesiana» “avant la lettre” e isso terá contribuído para atribuir ao «keynesianismo» a ideia de que o «militarismo» (a produção e as despesas de um complexo militar-industrial) são uma aplicação das ideias de Keynes, ele mesmo. Não são.
Keynes era simpatizante dos Fabianos - uma associação de adeptos de uma evolução “pacifica” para o socialismo, através de uma espécie de “friendly persuasion”. 
A esse respeito, ainda em muito jovem, lembro-me de um livro norte-americano que tinha como subtítulo «A Royal Road do Socialism»…
Resumindo «até à quinta casa», a política keynesiana consistirá em pôr o Estado a tomar a iniciativa de se substituir aos “privados” na função de investimento produtivo. Isso só deverá ter que acontecer (Keynes, dixit…) quando, e se, os “privados” não estiverem para aí virados. Isso – de os “privados” não estarem para aí virados – acontece por causa do «esgotamento progressivo (e relativamente a um período anterior) de oportunidades de investimento» (tese pessoal deste correspondente…) em resultado de uma famigerada queda tendencial da taxa de lucro; a qual tem vindo “ao de cima” de forma recorrente ao longo dos três ou quatro séculos que levamos de capitalismo.
As saídas – para esse esgotamento progressivo das oportunidades de investimento – têm sido a expansão colonial (e o imperialismo) e as guerras de destruição. E também (uma coisa “desleixada” por muitos analistas) a especulação financeira.
Hoje somos chegados a uma espécie de beco sem saída.
Não há mais «expansão colonial» (com a guerra dos Boéres o sistema-mundo passou de “sistema aberto” a “sistema fechado”) e as guerras, e
mbora continuem a ser de destruição, deixaram de “dar vazão” aos milhões de desempregados.
Estamos em plena especulaçãoi financeira!!!
Finalmente, na minha opinião, as políticas de Keynes – nos anos “gloriosos” da reconstrução até 1973/1974?…) – falharam porque “eles” (os adeptos de Hayek & Cª – e seus mandatários, Tatcher, Reagan e etc…) perceberam perfeitamente qual o rumo que o sistema estava a seguir… 
É ler o livro de Keynes «Economic Possibilities for Our Grandchildren»…
Um colega meu na IBM Zâmbia – jovem conservador britânico – referiu-se um dia a Keynes como «esse marxista encapotado»… Eu não iria tão longe, mas havia alguma razão para isso.

Acrescento ainda duas outras reflexões
Joan Robinson. amiga e “aluna” de Keynes, sendo uma «keynesiana de esquerda» é também usualmente considerada uma das maiores economistas do século XX. Alguns dos seus biógrafos atribuem parte da «revolução chinesa» de Deng Xiaoping à influência das visitas à China por parte de Joan Robinson e suas reuniões com os dirigentes chineses de então. A esse respeito veja-se o livro de 1975 «Economic Management in China».
Entretanto, não creio que Keynes achasse «que o melhor para a crise alemã era imprimir dinheiro». O que ele achava era que o montante das indemnizações – para ele exorbitante e desproporcionado – iria forçar os governantes alemães a desvalorizar a sua própria moeda.
De resto a Raquel tem razão na sua opinião de que «isto não vai com eurobonds”…
Já a «Taxa Tobin» (ou algo assim…) seria uma forma de REDUZIR a massa monetária que por aí anda em busca de aplicações financeiras (a especulação, sempre a especulação...). Ou seja, uma «taxa Tobin» seria um passo certo na direcção certa. E quanto mais “radical” mais efeitos positivos poderia ter.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Propósito da morte de Nelson Mandela

Todos em coro... «Morreu um grande Homem»...
Algumas reflexões avulsas e algo «contra-corrente»... 
De alguém que por vezes tem a mania de «marcher à coté de ses chaussures».

Aqui há uns meses atrás fui contactado por uma senhora jornalista para me pedir a minha opinião sobre aquilo que poderia acontecer na África do Sul quando morresse Nelson Mandela. Era ainda a repetição do síndroma «WHAM» («what happens after Mandela»). A minha opinião terá sido simples, curta e directa «quanto baste»:  
«Nada de especial»...
É evidente que o homem Nelson Rolihlahla Mandela esteve mais do que à altura das circunstâncias históricas em que teve que viver e figuras como ele (no século XX) talvez apenas Mahatma Gandhi. Curiosamente também foi na África do Sul (confrontado com a brutalidade estúpida de um regime de «apartheid» - ainda sob o domínio britânico!...) que também Mahatma Gandhi terá «acordado» para a sua militância pela justiça social.
Mas justamente pela sua grandeza moral como pessoa é que Mandela soube conquistar os seus opressores e levá-los à conclusão que o melhor mesmo para «eles» (os dirigentes «afrikanderes») era aceitarem uma África do Sul consolidada e plenamente integrada no globalização neoliberal onde eles já tinham – entretanto – garantido o seu lugar. Tudo isso, de uma «África do Sul unida e consolidada», em vez de uma balcanização em que cada «tribo» - incluíndo a «tribo» Afrikander - pudesse construir o seu próprio «estado-nação».
E lembrei (ou informei) a referida senhora jornalista de que o processo de libertação de Nelson Mandela tinha sido preparado, com muita antecedência. 
E até e sobretudo por pressão dos dirigentes do capitalismo sul-africano. 
Foi assim que durante os últimos anos da sua vida como prisioneiro, na prisão de «Victor Verster», Nelson Mandela passou a ser tratado com as mordomias adequadas a quem estava naturalmente destinado a vir a ser Presidente da República. Tudo isso – das condições de vida e das negociações sobre a libertação - está documentado.
E isso de modo a garantir a continuidade do sistema social e económico em que vivem (e sempre viveram) os sul-africanos. Bastava para isso «cooptar» os principais dirigentes «negros» (e outros «não.brancos») para posições de relevo social e económico. Em jargão lusitano «em vez de serem os brancos a arcar com a odium de reprimir os trabalhadores pretos, que fossem então agora alguns dirigentes negros a encarregar-se dessa tarefa».
Uma eventual marcha para o Socialismo, como parecia ter sido a promessa da luta do ANC, isso era uma outra questão.
Aquando das provas públicas da tese «A África do Sul e o Sistema-mundo – Da Guerra dos Boeresà Globalização» tive ocasião de comparar De Klerk com Marcelo Caetano. Este não tinha tido a coragem suficiente para fazer uma descolonização «a tempo e horas». Aquele dirigente africander, tendo visto o que tinha acontecido com as antigas colónias portuguesas, «pôs as barbas de molho» e decidiu fazer aquilo que fez: um golpe de Estado para forçar a demissão do seu antecessor P.W.Botha (o qual hesitava e continuava a hesitar naquilo que fazer para acabar de vez com o regime de «apartheid»).
O resto é história.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Bancos e Banqueiros nalguma Tradição Medieval

Anda por aí na literatura, em algumas «redes sociais» e em alguma imprensa a ideia de um possível retrocesso histórico a uma espécie de «Uma Nova Idade Média»...
Pois bem , num livro de um senhor Stephen Zalegna (do «American Institute of Money», 2002) intitulado
 «The Lost Science of Money - The Mythology of Money, the Story of Power» 
 vem a certa altura esta coisa deliciosa:
«These banks were private enterprises and ran into typical banking troubles, as seen from the banking laws enacted (na  Catalunha) in 1300-1301: "No money lender shall keep a bank in any place in Catalonia unless he shall fisrt given assurance (a bond)... "No moneychanger who may fail, and none who has recently failed or in times past has failed, shall again keep a bank or hold any office under the Crown" and "Until he shall have satisfied all demands, he shall be detained on a diet of bread and water."
An appendix was added in 1321:
"If no such settlement is made, they shall be proclaimed bankrupt and disgraced by the public crier in the places in which they failed and throughout Catalonia. They shall be behead and their property shall be sold for the satisfaction of their creditors by the Court... Neither we nor the most high heir apparent, nor our successors may pardon any money changers who have failed or may henforth failed". And "In 1360 Fracesh Castello was beheaded in front of his bank"».
Em tradução algo liberal mas o mais fiel possível será assim: 
 
«Estes bancos eram empresas privadas e incorreram nos típicos problemas bancários, como se pode ver pelas leis bancárias decretadas (na Catalunha ) em 1300-1301: "Nenhum prestamista poderá manter um banco em qualquer lugar na Catalunha, a menos que antes disso dê certeza de garantias (bens susceptíveis de confisco...) "Nenhum cambista que possa falir, e nenhum que tenha falido, recentemente ou no passado, poderá abrir novamente um banco ou ocupar qualquer cargo (público) sob a Coroa" e “Até que tenha satisfeito todas as exigências, deve ser detido numa dieta de pão e água."
Em 1331 foi acrescentado um apêndice:
"Se não for feita tal liquidação (de dívidas), (esses prestamistas) devem ser proclamados falidos e desgraçados (denunciados) pelo pregoeiro público nos lugares em que eles tenham falido e em toda a Catalunha . Serão decapitados e as suas propriedades serão vendidas para a satisfação dos seus credores pelo Tribunal. .. Nem nós (o soberano...), nem o (nosso...) mais alto herdeiro, nem nossos sucessores poderão perdoar quaisquer cambistas que tenham falido ou possam vir a falir”.
E "em 1360 Fracesh Castello foi decapitado na frente de seu banco" ».
 
Esta estória da decapitação do banqueiro Fracesh Castello vem também referida no livro 

Meltdown: Money, Debt and the Wealth of Nations, Volume 4, página 231.

Colectância de ensaios e artigos editada por William Krehm
Journal of the Committee on Monetary and Economic Reform, January 2004 to June 2005
Olha se alguém leva a sério esta estória de um eventual retrocesso a uma «Nova Idade Média»...
Chiça, ainda bem que não sou banqueiro nem estamos na Catalunha...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O Poder da Barreira Ideológica

Eles queimaram Giorgano Bruno porque cometeu a heresia de tentar explicar que o Sol era apenas mais uma estrela entre tantas outras no Universo. Nicolau Copérnico teve medo de publicar em vida as suas reflexões e descobetras sobre a natureza do cosmos e dos sistema solar. Eles condenaram Galileo a uma prisão domicilária vitalícia (e mesmo assim porque o dito Galileo «abjurou» da suas tese herética de que a Terra girava à volta do Sol.
São apenas três exemplos históricos que me ocorrem (coisas profundas de quem tem pouco mais com que se entreter...) a propósito de mais uma daquelas parvoíces com que, de vez em quando (ou melhor, com demasiada frequência!...) nos vais brindando o muy ilustre e nunca demais badalado professor catedrático da Universidade Católica, João César das Neves.
Parece que só assim, escrevendo parvoeiras, o homem consegue que se fale dele.
Desta vez «parvoou» forte. 
Só pode ser porque a ideologia ou escolástica académica (uma «ideologia matematicamente pura»...) que lhe inculcaram na Universidade o impede de ver melhor e sobretudo «mais longe».
Entre a parvoeira de «a maioria dos pensionistas com uma pensão de 600 euros» fingirem que são pobres para «defenderem o seu» e a parvoeira de que a solução (ou saída) para a crise em que estamos seria mesmo «reduzir ainda mais os salários», venha o diabo (cruz, credo...) e escolha.
No caso do «fingimento» a coisa atinge o nível do insulto desbragado, indigno de um ilustre catedrático.
No caso de uma maior «redução dos salários» a coisa entra no campo da estupidez, pura e dura. Parafraseando um outro ilustre catedrátio, entretando já falecido, mesmo sendo eu (ou tendo sido) apenas um obscuro «professor auxiliar convidado», um mestrando que me aparecesse com essa ideia peregrina era chumbado e mandado regressar no ano seguinte; depois de instado a estudar melhor a matéria.
Ao nosso ilustre catedrático não se lhe ocorre que todos os países do mundo gostavam de exportar mais (deve ser para isso que serviriam os «salários ainda mais baixos...) de modo a terem - eventualmente - um excedente comercial qualquer, para assim pagarem as suas «dívidas»... E sobretudo não se lhe ocorre que a ideia de todos os países do mundo terem um excedente é uma impossibilidade contabilistica...
«Andam todos ao mesmo», como nos explicava, há uns 30 anos atrás, um professor da Sorbonne num «seminário» de duas semanas intensivas da multinacional em que então trabalhava.
E não se lhe ocorre também que sendo o sistema económico mundial - de âmbito planetário - um sistema fechado, aquilo que se fizer «aqui» tem sempre repercussões «ali»...
Sendo a Universidade Católica um estabelecimento de ensino da Igreja e tendo esta a convicção de que é a representante de Deus na Terra - logo com tendência ao universal, a ver o mundo como um todo integrado confesso que esperava mais e melhor (uma outra visão «universal») de um seu catedrático.
Afinal pensa como um contabilista doméstico.
Mas atenção, tendo feito há mais de cinquenta anos atrás o antigo «Curso Geral de Comércio» (qualificava para ajudante de guarda-livros...) tenho o maior respeito pelos contabilistas.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Propostas de Engenharia Social

Neste blogue tenho procurado ir reflectindo - de forma esporádica - sobre a lógica e mecanismos de funcionamento do sistema capitalista (é aquele que temos...).
Tudo isso - essas reflexões - na premissa de que (como dizia Kurt Lewin) «não há nada mais práctico do que uma boa teoria». Por outras palavras, na minha modesta opinião, todas as propostas que vai havendo para sair da crise e/ou para «resolver os problemas do mundo», só serão verdadeiramente eficazes se forem baseadas num conhecimento de tidpo ciêntífico sobre os referidos mecanismos (e sua lógica) do funcionamento do sistema capitalista.
Em todo o caso, no entanto, sempre será possível - nada impede - que haja soluções que «acertem» tal como acontecia com o conhecimento empirico dos engenheiros e arquitectos que construiram (ou fizeram construir) grandes estruturas físicas (aquedutos, pontes, catedrais...) sem terem conhecimento da natureza íntima da teoria gravitacional e da «atracção universal dos corpos celestes».
Pois bem, de vez em quando aparecem propostas a que talvez valha a pena prestar atenção....
É o caso de uma «proposta vinda da periferia do mundo» 
 
BUEN VIVIR

 A pedido dos seus organizadores - a Organização Não Governamental CIDAC - trago aqui a notícia de uma conferência a realizar no Auditório 3 da Fundação Gulbenkian, no próximo dia 7 de Novembro pelas 18:30.






terça-feira, 25 de junho de 2013

Coisas que vou rabiscando - 1

Da Relevância Crucial da Teoria (laboral) do Valor
No seu objectivo de explicar e justificar determinados fenómenos da economia em que vivemos e cujas consequências afectam de modo desigual a generalidade dos membros da sociedade humana, os economistas convencionais ou da chamada linha principal, há muito tempo já que decretaram – segundo julgam a título definitivo – que estavam profundamente erradas as ideias de Karl Marx relativamente ao funcionamento da economia capitalista. Mas nem sempre foi assim. No seu, tempo, mesmo sendo um autor já então perseguido ou ostracizado, havia pelo menos a ideia de que a análise de Marx sobre o sistema capitalista reflectia de facto – explicando-a com rigor – a realidade objectiva e observada dos factos económicos. Por exemplo, a própria Igreja Católica chamava a atenção para aquilo a que então se chamou de “A Questão Social”, justamente com base na observação dos fenómenos sociais explicados pela análise produzida por Karl Marx relativamente ao funcionamento da economia capitalista. Ainda por exemplo, Karl Rodbertus, um economista conservador e contemporâneo de Karl Marx, acusava mesmo este último de o ter plagiado, muito em particular no que diz respeito à sua formulação da teoria laboral do valor. Ou seja, no tempo de Karl Marx não era propriamente o fundamento da sua análise sobre o modo de funcionamento do sistema capitalista que era posto em causa. Aquilo que se punha em causa – nos círculos académicos, sociais e políticos dos dirigentes do sistema - eram as consequências que daí podiam naturalmente advir. Designadamente a tentativa “revolucionária” de acelerar o curso da História e “forçar a passagem” para um outro sistema de organização social e económica.
Poderá mesmo considerar-se (sem forçar muito a nota...) que a emergência da abordagem marginalista, por via dos trabalhos de autores como William Jevons (1862), Carl Menger (1871) ou Léon Walras (1874), não podendo propriamente ser considerada como uma resposta ao paradigma analítico desenvolvido por Karl Marx1, pode antes ser considerada como uma especificidade analítica do tipo de comportamento decisório por parte dos agentes económicos, quer na produção, quer no consumo. Por outras palavras, não se trata de discutir se o paradigma analítico marxista está errado e o paradigma analítico marginalista está certo, ou vice versa. Enquanto que o paradigma analítico marxista explica o modo de produção e distribuição da riqueza mercantil produzida, o paradigma analítico marginalista explica as razões das tomadas de decisão por parte dos agentes económicos, relativamente à dimensão quantitativa (ou situação “óptima”), quer do lado dos factores de produção quer do lado do consumo. São duas facetas distintas e complementares que, no entanto, aparecem quase sempre apresentadas como se fossem “paradigmas alternativos”.
Voltando entretanto à questão das possíveis consequências de uma compreensão plena e eficaz dos mecanismos e da lógica de funcionamento do sistema capitalista (conhecimento é poder...), tornou-se urgente refutar as bases teóricas das análises expostas em “Das Kapital “ de modo a que as mesmas pudessem ser “varridas para um qualquer caixote do lixo da história das ideias”.
Foi assim que a teoria marginalista veio devidamente aproveitada para, através de uma exclusiva atenção ao epifenómeno do “preço”, se esconder por debaixo do tapete, o interesse da categoria analítica “valor”.

1Em rigor dir-se-ia antes que a emergência das ideias do marginalismo eram um desenvolvimento da teoria da renda de David Ricardo (“é o valor produzido nas terras marginais aquilo que determina a renda das terras mais férteis”...), implicando no entanto o abandono da teoria laboral do valor, desenvolvida pelos clássicos e reelaborada, de forma crítica, por Karl Marx. Em todo o caso, o primeiro volume de “Das Kapital” até só foi publicado em 1867, ou seja 5 anos depois da publicação do artigo de William Jevons General Mathematical Theory of Political Economy .

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Dinâmica Recente do Capitalismo

Parafraseando Hegel, mas também a nossa sabedoria popular, «o que tem que ser, tem muita força»... Lénine dizia algo de semelhante quando dizia algo como «os factos são muito teimosos».
E os factos aí estão...


Dinâmica Recente do Capitalismo
Em 20 frases simples
(e numa perspectiva de poucas décadas)


01. O próprio do capitalismo é crescer e acumular, acumular e crescer.
02. A "cenoura" – motivação – e motor da actividade é a busca de lucro.
03. A taxa de lucro funciona como «acelerador», «travão» e ainda como «caixa de velocidades». Acontece que a taxa de lucro tem períodos de subida, de estagnação e de descida
04. Entretanto o montante dos lucros empresariais repartem-se em: rendas (pagamento aos «senhorios»), juros (pagamento aos «donos do dinheiro») e impostos (pagamento pelos serviços básicos do Estado minimalista).
05. Quando a taxa de lucro começa a descer verifica-se uma busca desenfreada por «saídas» (ou «aplicações»...) para o excedente potencial, com a sua conversão em excedentes financeiros.
06. Assim sendo, quando a TAXA de lucro começa a descer, para manter incólume a MASSA (o montante) dos lucros, o Capital procurará reduzir as transferências para os «senhorios», para os «bancos» e para o Estado… 
07. Como os donos do Capital se combinam/misturam facilmente com os «senhorios» e com os «donos do dinheiro», os «custos» dessa redução sobram naturalmente para a Res Pública.
Daí veio a resultar:
08. Uma exigência de redução nas taxas dos impostos tipo IRC e de IRS aplicáveis aos donos e agentes do Capital.
09. Para facilitar a optimização fiscal, um manipulação e ajuste das normas e padrões de contabilidade.
10. Ainda para facilitar a optimização fiscal, uma exigência da flexibilização dos padrões e enquadramento legal da auditoria.
11. Veio também a liberalização dos movimentos de capitais financeiros o «Bigger Bang» e os «Euromarkets» consagrando o dinheiro virtual sem qualquer controle estatal/nacional.
12. Entretanto... Dos ganhos de produtividade veio a resultar uma «compressão dos salários» e o «desemprego sistémico»... Logo, redução do poder de compra global ou a nível sistémico...
13. Se o sistema reduz o poder de compra agregado, há que facilitar o acesso ao CRÉDITO (como fonte de receita para os bancos).

14. Temos assim uma dupla BIFURCAÇÃO nas Taxas de Juro
Entidades
Bancos Comerciais
Bancos Centrais
Destino
Consumo
Investimento
Efeito
Aumento = Usura
Redução = Quantitative Easing
15. Tivemos assim e também a abolição das Leis da Usura (ou seja, a permissão de taxas de juro sem limitações...)
 16. Daí veio a resultar um aumento exponencial do consumo a crédito e naturalmente o aumento da dívida privada.
17. Da redução das taxas daqueles impostos e da «optimização» fiscal veio a resultar o aumento do défice público, forçando os Estados a «vampirizar» as respectivas Seguranças Sociais.


18. Temos entretanto a inoperância da redução das taxas de juro para o investimento reprodutivo de bens e serviços, pois que «com uma corda não se empurra uma carroça»
19. Na falta de outras «aplicações» e/ou «fontes de rendimento», a «Banca» (em especial na zona Euro...) aproveita para «financiar» a dívida pública...
20. De tudo isto só pode resultar uma propensão para a instabilidade social, o caos e, eventualmente, a guerra...
Dá para perceber, ou é preciso fazer uma diagrama?...