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segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Dinâmica Recente do Capitalismo

Parafraseando Hegel, mas também a nossa sabedoria popular, «o que tem que ser, tem muita força»... Lénine dizia algo de semelhante quando dizia algo como «os factos são muito teimosos».
E os factos aí estão...


Dinâmica Recente do Capitalismo
Em 20 frases simples
(e numa perspectiva de poucas décadas)


01. O próprio do capitalismo é crescer e acumular, acumular e crescer.
02. A "cenoura" – motivação – e motor da actividade é a busca de lucro.
03. A taxa de lucro funciona como «acelerador», «travão» e ainda como «caixa de velocidades». Acontece que a taxa de lucro tem períodos de subida, de estagnação e de descida
04. Entretanto o montante dos lucros empresariais repartem-se em: rendas (pagamento aos «senhorios»), juros (pagamento aos «donos do dinheiro») e impostos (pagamento pelos serviços básicos do Estado minimalista).
05. Quando a taxa de lucro começa a descer verifica-se uma busca desenfreada por «saídas» (ou «aplicações»...) para o excedente potencial, com a sua conversão em excedentes financeiros.
06. Assim sendo, quando a TAXA de lucro começa a descer, para manter incólume a MASSA (o montante) dos lucros, o Capital procurará reduzir as transferências para os «senhorios», para os «bancos» e para o Estado… 
07. Como os donos do Capital se combinam/misturam facilmente com os «senhorios» e com os «donos do dinheiro», os «custos» dessa redução sobram naturalmente para a Res Pública.
Daí veio a resultar:
08. Uma exigência de redução nas taxas dos impostos tipo IRC e de IRS aplicáveis aos donos e agentes do Capital.
09. Para facilitar a optimização fiscal, um manipulação e ajuste das normas e padrões de contabilidade.
10. Ainda para facilitar a optimização fiscal, uma exigência da flexibilização dos padrões e enquadramento legal da auditoria.
11. Veio também a liberalização dos movimentos de capitais financeiros o «Bigger Bang» e os «Euromarkets» consagrando o dinheiro virtual sem qualquer controle estatal/nacional.
12. Entretanto... Dos ganhos de produtividade veio a resultar uma «compressão dos salários» e o «desemprego sistémico»... Logo, redução do poder de compra global ou a nível sistémico...
13. Se o sistema reduz o poder de compra agregado, há que facilitar o acesso ao CRÉDITO (como fonte de receita para os bancos).

14. Temos assim uma dupla BIFURCAÇÃO nas Taxas de Juro
Entidades
Bancos Comerciais
Bancos Centrais
Destino
Consumo
Investimento
Efeito
Aumento = Usura
Redução = Quantitative Easing
15. Tivemos assim e também a abolição das Leis da Usura (ou seja, a permissão de taxas de juro sem limitações...)
 16. Daí veio a resultar um aumento exponencial do consumo a crédito e naturalmente o aumento da dívida privada.
17. Da redução das taxas daqueles impostos e da «optimização» fiscal veio a resultar o aumento do défice público, forçando os Estados a «vampirizar» as respectivas Seguranças Sociais.


18. Temos entretanto a inoperância da redução das taxas de juro para o investimento reprodutivo de bens e serviços, pois que «com uma corda não se empurra uma carroça»
19. Na falta de outras «aplicações» e/ou «fontes de rendimento», a «Banca» (em especial na zona Euro...) aproveita para «financiar» a dívida pública...
20. De tudo isto só pode resultar uma propensão para a instabilidade social, o caos e, eventualmente, a guerra...
Dá para perceber, ou é preciso fazer uma diagrama?...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Coisas de longe...

ALGUMAS REFLEXÕES AVULSAS SOBRE DÍVIDA E METÁFORAS

Ainda longe deste «jardim da Europa à beira mar plantado» recebi, de um amigo de longa data, este texto delicioso que parece que volta a circular pela Rede.

«Curso rápido de Economia...
Um viajante chega a um hotel para dormir, mas pede para ver o quarto. Entretanto, entrega ao recepcionista duas notas de 100 euros.
Enquanto o viajante inspecciona os quartos, o gerente do hotel sai a correr com as duas notas de 100€, e vai à mercearia ao lado pagar uma dívida antiga... 
Exactamente de 200 euros. 
Surpreendido pelo pagamento inesperado da dívida, o merceeiro aproveita para pagar a um fornecedor uma dívida que tinha há muito... também de 200 euros.
O fornecedor, por sua vez, pega também nas duas notas e corre à farmácia, para liquidar uma dívida que aí tinha de... 200 euros.
O farmacêutico, com as duas notas na mão, corre disparado e vai a uma casa de alterne ali ao lado, liquidar uma dívida com uma prostituta.... 
Coincidentemente, a dívida era de 200 euros.
A prostituta agradecida, sai com o dinheiro em direcção ao hotel, lugar onde habitualmente levava os seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações. 
Valor total da dívida: 200 euros.
Ela avisa o gerente que está a pagar a conta e coloca as notas em cima do balcão.
Nesse preciso momento, o viajante retorna do quarto, diz não ser o que esperava, pega nas duas notas de volta, agradece e sai do hotel.
Ninguém ganhou ou gastou um cêntimo, porém agora toda a cidade vive sem dívidas, com o crédito restaurado e começa a ver o futuro com confiança!
MORAL DA HISTÓRIA:
NINGUÉM ENTENDE A ECONOMIA! (nem o gajo que escreveu isto!)
E MUITO MENOS EU. MAS FICOU TUDO SALDADO E SEM RECURSO AOS TRIBUNAIS!!! SAFA!!!»
A história está com alguma piada e até tem a sua verosimilhança...

Faltaria apenas acrescentar o pequeno, mas nada insignificante, detalhe da ausência de um banqueiro ou agiota naquela historieta. Tudo ali se passava na base da confiança recíproca entre todos os participantes.

Se juntarmos à história a presença (existência) de um banqueiro ou agiota (esta coisa de eu escrever «banqueiro OU agiota» nem é inocente nem é uma questão de estilo literário...) e pensando na Dívida pública do «nosso» Estado, poderíamos chegar à conclusão  – na nossa vida real da alegadamente nossa «Dívida» objectiva e concreta de 127% do «nosso» PIBde que uma saída para esta crise da dívida será (há-de vir a ser...) a nacionalização da Banca. 
O resto serão detalhes para «contabilistas» armados em políticos.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Um 4º apontamento sobre a «Ratoeira da Dívida»

Ou de como estamos emaranhados numa teia peganhenta e atolados num pantâno de areias movediças
Dizem os economistas convencionais (e com razão) que o processo de endividamento em si mesmo é eficaz para o funcionamento da economia.
A questão agora está no uso da dívida e, sobretudo, no uso da dívida como instrumento de controle político.
Neste contexto a dívida é cada vez mais vista como um garrote que impede a circulação de bens e serviços ou como uma qualquer barra metálica encravada nas rodas dentadas da economia e que a impede de funcionar com um mínimo de eficiência sistémica.
Dada a dimensão e a (dis)funcionalidade desta dívida, o seu «serviço» (em rigor uma espécie de tributo a pagar a novos senhores feudais) funciona cada vez mais como um aspirador gigantesco que vai sugando sem fim o dinheiro que faz falta à economia, quer nas suas funções de lubrificante, quer nas suas funções de comburente, do sistema de trocas que é a economia.
Mas adiante. 
Essa teia embrulhada de «crédito-dinheiro-dívida» foi criada por «meia-dúzia» de banqueiros e seus executivos que «levaram à certa»» alguns milhões de incautos e, em resultado disso, todos nós como sociedade (a titulo individual ou em grupo, por acção ou omissão -  mas também contra os protestos e alertas atempados de alguns!... ), temos agora que arcar com as «culpas» e consequências da irresponsabilidade criminosa de quem consentiu nessa criação privada e incontrolada de «crédito-dinheiro-dívida».
Os muitos «títulos de dívida» (dinheiro sob a forma de saldos em contas bancárias), esses estão registados primordialmente no sistema mundial «offshore» controlados a partir da «City of London» e de «Wall Street», com algumas filiais e ramificações por esse mundo fora. 
Esse dinheiro, que anda a ser emprestado, começou por fugir dos países «a sério» para os refúgios fiscais que constituem o sistema mundial «offshore» .
Isto, esta primeira tentativa de explicação de qual a origem da «Dívida» é válida para a sociedade capitalista como um todo. 
Aquilo a que agora se chama cerimoniosamente (digo eu, que às vezes me dá para o cinismo...) «capitalismo selvagem».
Um primeiro ponto a reter e que é válido para todos os países.
Independentemente dos montantes envolvidos,  uma parte (pelo menos um terço?... desse dinheiro é nosso.
Foi dinheiro defraudado (roubado) ao(s) Estado(s) (e por tabela aos seus cidadãos) para depois lhes vir a ser emprestado.
Uma nota: o resto desses dinheiros vem, em parte, da injecção de liquidez no sistema bancário comercial, por parte do BCE e também de alguns «investidores institucionais» como sejam os «fundos de pensões». Mas isso ficará para outros apontamentos.
Com base no relatório da associação Tax Justice Network «The Cost of Tax Abuse – A briefing paper on the cost of tax evasion worldwide»1 indico em seguida e de modo resumido a situação estudada por aquela organização.

Perdas de Impostos devido a evasão fiscal


 
A Espanha tem estado a perder anualmente verbas próximas de 107.000 milhões de US$. Em Portugal, a Autoridade Fiscal e Aduaneira tem estado a perder anualmente verbas próximas de 23.000 milhões de US$ ou seja, o equivalente a 10% do PIB. Anualmente...
Os números acima referem-se a estimativas para o ano de 2010. E não dizem só respeito - de todo - à «economia dos pequenos biscates» (mais tarde, numa outra mensagem espero voltar a isto...).
Não terá sido sempre assim, e é razoável presumir que a situação se tem estado a agravar ao longo dos últimos 20 anos. Quer isto dizer que, numa estimativa grosseira (mas certamente que não muito longe da realidade), que o total de dinheiro que, ao longo dos últimos 20 anos, deixou de entrar nos cofres do Estado por via da evasão fiscal em Portugal é muito capaz de rondar o equivalente a 160 mil milhões de dólares. 
Ou seja o equivalente a cerca de 70% PIB e de 60% da dívida soberana.
Conclusão: se o Estado tivesse tido a capacidade para controlar aquela evasão fiscal, a «nossa» dívida pública seria algo como 50% do PIB... Um luxo! 
A este respeito, como diria um famoso economista «prefiro mais estar vagamente certo do que exactamente errado»... 
Mas atenção!
Nada disto inclui os montantes referentes a «evitação» ou «optimização» fiscal, legal, autorizada e cada vez mais encorajada pelos Estados que fazem concorrência entre si para «atrair investimentos»...
É a chamada competitividade fiscal.
A tal a que se refere de modo tranquilo o sr. Álvaro Pereira – que vai estando «ministro da economia» – quando fala em reduzir o IRC...
Nota: No caso específico da «optimização fiscal» a própria designação sugere a busca permanente de alternativas sobre «onde registar ou declarar custos e benefícios», por parte dos chamados «chief financial officers» (comheci vários...) das empresas transnacionais, de modo a minimizar os impostos a pagar em qualquer parte.
1Disponível em http://www.tackletaxhavens.com/Cost_of_Tax_Abuse_TJN%20Research_23rd_Nov_2011.pdf

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um terceiro apontamento sobre a «Ratoeira da Dívida»

A propósito do papel funcional da dívida.
Em primeiro lugar, sem a existência da ideia e da práctica da dívida não haveria processo de acumulação económica nem tinha havido o processo de evolução social e económica historicamente verificado. Portanto, à primeira vista «a dívida é uma coisa boa»...
Só que o modo de pensar dialécticamente já nos devia ter ensinado que as coisas não sempre «boas», nem são sempre «más»...
Tudo depende do grau da evolução histórica, da fase dessa mesma evolução, assim como do próprio grau ou «densidade» específica da dívida (se é de mais ou se é de menos...).
Se a dívida é de mais passa a ter outras características funcionais. Deixa de ser benéfica para o funcionamento minimamente equilibrado do sistema (mesmo quando parece ser uma «bóia de salvação») para passar a ser contraproducente. Como se está a ver, ao travar quaisquer hipóteses de recuperação da economia.
Qualquer estudante de engenharia (ou de sociologia), que tivesse feito uma cadeira de «teoria geral de sistemas» podia, há muito tempo, ter explicado isto aos senhores da «toika» (ou da «quadrilha» para utilizar a feliz expressão de Pacheco Pereira).
A actual dívida soberana, pela sua dimensão e especificidades (os tipos de credores e o destino ou aplicação que é dada aos «reembolsos» que vão sen efectuados – a compra de mais «títulos de dívida» ou «obrigações do tesouro») tornou-se simplesmente absurda, aberrante, impagável e contraproducente. O instrumento de crédito/dívida deixou de ser funcionalmente útil para passar a ser um garrote que impede a economia de simplesmete redspirar, quanto mais recuperar e crescer.
É por isso que cada vez mais vai havendo notícia de um número crescente de economistas (os não convencionais...) que vão chamando a atenção para a necessidade de anular a dívida. Em parte, de modo selectivo, ou mesmo na sua totalidade.
Apenas a título de exemplo (e para quem entenda bem o Inglês) remeto aqui para uma entrevista no bem conhecido programa «HardTalk» da mais que insuspeita BBC, realizada em 2011, com o economista australiano Steve Keen.
Já o antropólogo David Graeber, por exemplo, assinala a recorrência histórica ao longo de séculos daquilo a que, a propósito do movimento internacional por ocasião do Ano 2000, se convencionou chamar (de novo...) «Ano do Jubileu», querendo com isso significar o ano da anulação das dívidas, tal como já vinha referido na Biblia e era também praticado nas antigas civilizações do Oriente e do Médio Oriente.
Para muito boa gente (e até gente bem colocada para saber do que fala) a melhor saída para este imbroglio (eventualmente até a única saída...) acabará por ser:
- A anulação da dívida (ou grande parte dela), 
- A nacionalização da banca (e falência «controlada» dos bancos  insolventes). 
e depois, 
- Recomeçar de novo.
No entanto, isto é o que recomendam esses alguns economistas heterodoxos e não convencionais, esquedendo no entanto que a História (contrariamente ao que se possa pensar) não se repete e que não vai ser possível «recomeçar de novo» sem profundas alterações nas «regras do jogo».
Há quem lhe chame Revolução. 
Outros preferem talvez «evolução acelerada» ou apenas «reformas MUITO profundas»...
Seja como for, «isto assim não pode ficar». 
Vai ser preciso cortar cerce o garrote que impede as economias de respirar... 
 

sábado, 27 de abril de 2013

A Propósito da «Ratoeira» da Dívida - 2

Vejamos agora – muito sucintamente - o papel funcional da dívida.
Em primeiro lugar, sem a existência da ideia e da práctica da dívida não haveria processo de acumulação económica nem tinha havido o processo de evolução social e económica historicamente verificado. Portanto, à primeira vista «a dívida é uma coisa boa»...
Só que o modo de pensar dialécticamente já nos devia ter ensinado que as coisas não sempre «boas», nem são sempre «más»...
Tudo depende do grau da evolução histórica, da fase dessa mesma evolução, assim como do próprio grau ou «densidade» específica da dívida (se é de mais ou se é de menos...).
Se a dívida é de mais passa a ter outras características funcionais. Deixa de ser benéfica para o funcionamento minimamente equilibrado do sistema (mesmo quando parece ser uma «bóia de salvação») para passar a ser contraproducente. Como se está a ver, ao travar quaisquer hipóteses de recuperação da economia.
Qualquer estudante de engenharia (ou de sociologia), que tivesse feito uma cadeira de «teoria geral de sistemas» podia, há muito tempo, ter explicado isto aos senhores da «toika» (ou da «quadrilha» para utilizar a feliz expressão de Pacheco Pereira).
A actual dívida soberana, pela sua dimensão e especificidades (os tipos de credores e o destino ou aplicação que é dada aos «reembolsos» que vão sen efectuados – a compra de mais «títulos de dívida» ou «obrigações do tesouro») tornou-se simplesmente absurda, aberrante, impagável e contraproducente. O instrumento de crédito/dívida deixou de ser funcionalmente útil para passar a ser um garrote que impede a economia de simplesmete redspirar, quanto mais recuperar e crescer.
É por isso que cada vez mais vai havendo notícia de um número crescente de economistas (os não convencionais...) que vão chamando a atenção para a necessidade de anular a dívida. Em parte, de modo selectivo, ou mesmo na sua totalidade.
Apenas a título de exemplo (e para quem entenda bem o Inglês) remeto aqui para uma entrevista no bem conhecido programa «HardTalk» da BBC, realizada em 2011, com o economista australiano Steve Keen.
http://www.youtube.com/watch?v=rGkmgnprrIU 
Já o antropólogo David Graeber, por exemplo, assinala a recorrência histórica ao longo de séculos daquilo a que, a propósito do movimento internacional por ocasião do Ano 2000, se convencionou chamar (de novo...) «Ano do Jubileu», querendo com isso significar o ano da anulação das dívidas, tal como já vinha referido na Biblia e era também praticado nas antigas civilizações do Oriente e do Médio Oriente.
Para muito boa gente (e até gente bem colocada para saber do que fala) a melhor saída para este imbroglio (eventualmente até a única saída...) acabará por ser:
- A anulação da dívida (ou grande parte dela), 
- A nacionalização da banca (com a falência «controlada» de bancos de facto insolventes). 
- E depois, recomeçar de novo.
Dizem eles, esses alguns economistas heterodoxos e não convencionais, esquedendo no entanto que a História (contrariamente ao que se possa pensar) não se repete e que não vai ser possível «recomeça de novo» sem profundas alterações nas «regras do jogo».
Há quem lhe chame Revolução. 
Outros preferem talvez «evolução acelerada» ou apenas «reformas MUITO profundas»...
Seja como for, «isto assim não pode ficar». 
É mesmo preciso cortar cerce o garrote que impede as economias de respirar... 
 

segunda-feira, 4 de março de 2013

A dívida absurda ou a aberração da dívida

Somos alguns milhões – só em Portugal – a sermos esbulhados, por meio de impostos e contribuições cada vez mais exorbitantes, para pagarmos uma dívida pública «externa» que não contraímos. Alguns papagaios, comentadores e «economistas» de aviário dizem-nos também que «não há alternativa», temos mesmo que pagar («eles emprestaram ou não emprestaram»?...).

Vamos por uns minutos imaginar que esta dívida pública (esta e as outras, dos outros páises todos...) é uma dívida legítima. Que até resulta de empréstimos feitos por entidades que tinham acumulado esses capitais financeiros com toda a legitimidade e, sobretudo, sem terem fugido ao pagamento dos impostos sobre os lucros ao longo de várias décadas. Mesmo assim, nessas hipotéticas circunstâncias de legitimidade, o que me parece mais aberrante (estupidamente aberrante...) é que isso, o pagamento da dívida (se por milagre alguma vez acontecesse...) não serve para nada... 
Ou seja, aquele dinheiro todo «que nos vai sendo emprestado e que nós vamos pagando» não vai ter uma qualquer outra aplicação que não seja voltar a ser emprestado. Acumulando juros e "capital emprestado". 
Quando muito na compra («investimento» dizem eles...) de coisas que já existem... 

Per secula seculorum... Se entretanto os povos não se revoltarem, claro...

Acontece que existe no sistema capitalista um característica muito peculiar e que eu designo por «esgotamento progressivo de oportunidades de investimento». Investimento lucrativo, claro. Não é difícil demonstrar a existência dessa característica, mas isso não cabe agora aqui. Em todo o caso essa demonstração está feita e disponível para quem estiver interessado.

Em consequência desse esgotamento progressivo das oportunidades de investimento, os donos e gestores de todo aquele capital financeirto procuram naturalmente aplicações alternativas. Vamos imaginar que na busca de aplicações financeiras rentáveis conseguem todos os seus objectivos; ou seja a obtenção de oportunidades de aplicação rentável em coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade e que sejam susceptíveis de «compra e venda» (os mercados, sempre os mercados....).

Como vão assinalando os observadores mais atentos, aquelas «coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade» que constituem aquelas oportunidades de investimento e que estão assim «à mão de semear», são a privatização de tudo e mais alguma coisa que compete a um Estado moderno, progressista e com um mínimo de preocupação por tudo quanto é social.

Vamos pois imaginar que eles conseguem privatizar todos os ensinos públicos e todos os serviços nacionais de saúde e que conseguem também privatizar toda a distribuição de água (um monopólio natural por execelência...). Acrescentemos a isso a privatização de portos e transportes (vias férreas e todo o tipo de estradas) e ainda (porque não, já agora...) a privatização da segurança interna e da Justiça.

Vamos então imaginar que com todas essas privatizações, e através da manipulação de preços, os donos do capital financeiro, conseguem obter taxas de lucro melhores do que as «meras« aplicações financeiras. Nessa altura, em vez de nos retirarem «poder de compra» por via dos impostos para «pagarmos a dívida», vão-nos retirar «poder de compra» por via dos preços – que teríamos que pagar – por aqueles serviços que antes eram prestados de modo tendencialmente gratuito pelo Estado.

E depois?...

Nesse cenário de pesadelo absurdo de onde viria o «poder de compra» necessário e suficiente para escoar a oferta daqueles serviços todos?...

É neste contexto que se coloca a questão da aberração do pagamento indefinido de uma dívida absurda. Se os senhores da «troika» e seus mandatários locais (aqui ou na Grécia, por exemplo) tivessem um pingo de bom senso, talvez fosse possível perguntar-lhes «o que vão fazer com o dinheiro dos pagamentos das dívidas públicas»...

Para onde vão todos esses fundos financeiros?... Para que servem?... Em que vão ser aplicados (ou «investidos»)?

Muito provavelmente responderiam que «não temos nada a ver com isso», o dinheiro é deles (ou melhor dos seus patrões...) e eles, os patrões, é que têm que decidir o que querem fazer com os dinheiros que alguém fabricou, sendo que este «fabrico de dinheiro» resultou a partir de lucros empresariais minimanente legitimos (mas sobretudo engordados com o não pagamento de impostos), ou a partir da fabricação de dinheiro ou capital fictício resultante da criação de empréstimos bancários virtuais...

Mas a resposta mais prosaica seria muito provavelmente a de que esses fundos financeiros todos serão de novo aplicados na compra de mais dívida pública...

É evidente que o Planeta está cheio de oportunidades para fazer coisas, úteis e necessárias; desde a regeneração do meio ambiente (o mar e as florestas...) até à renovação de estruturas físicas e desenvolvimento de novas tecnologias de fontes de energia e de aproveitamento «verde» das coisas da Natureza.
Só que isso, tudo isso, cai cada vez mais no âmbito da coisa pública... 
Não constitui oportunidade de investimento que tenha o lucro como objectivo imediato.

Ou seja, o sistema parece ter entrado num beco sem saída. 
Mas «saídas» há: o caos (e a barbárie...) ou o Socialismo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Memórias (e lições) de um passado recente…


A propósito da minha recorrente insistência sobre o facto de não haver quaisquer exemplos de sucesso destas medidas de austeridade com que nos estão a fustigar (para resolver o «gravíssimo» problema da dívida pública…) trago aqui à colação um breve trecho de um livro de R.T. Naylor: «Dinheiro Quente e a Política da Dívida», publicado em 1987 (e traduzido para Português em 1989):
«Quando o presidente De la Madrid desacreditou o «populismo financeiro» do seu antecessor, repudiou igualmente os esforços de Lopez Portillo para atirar as culpas da crise para cima do sistema financeiro internacional. De la Madrid insistiu – numa linguagem que poderia ter vindo directamente de qualquer relatório do FMI sobre o pais – que as causas do problema eram um governo dissoluto e um comportamento consumista, contra os quais o óbvio remédio era uma severa austeridade. À superfície esse remédio pareceu dar resultados. Em 1981 tinha havido um défice de 3.500 milhões de dólares na balança comercial; nos finais de 1982, as importações tinham sido tão reduzidas que havia um superavit de 5.000 milhões nas trocas comerciais. Durante 1983, o superavit ultrapassou mesmo o objectivo estipulado pelo FMI e, em 1954, o México foi apontado como um modelo de respeitabilidade fiscal e financeira.
Os oráculos do «dinheiro bom» exultaram, cheios de entusiasmo. «O remédio prescrito foi tão forte como eficaz» proclamou The Economist. Foi dado grande relevo na imprensa ao reembolso por parte do México, no Verão de 1983, das suas dívidas ao Banco Internacional de Compensações e ao sistema norte-americano de Reserva Federal (dos rendimentos de novos empréstimos de bancos comerciais!). Um vice-presidente do Banco Mundial, Ernest Stern, contribuiu para a escalada de disparates ao declarar que «a forma como o povo e o governo do México tinham conseguido gerir a crise havia enchido o mundo de admiração». No entanto o prémio vai para o economista mexicano que se atreveu a dizer: «Financeiramente as coisas vão muito bem, mas economicamente as coisas vão muito mal!». Isso deve ter servido de consolo a população mexicana: desde 1982 tinha sofrido uma descida nos salários reais de 25% (em fins de 1984, 49%) e uma taxa de desemprego e subemprego na ordem dos 50%»
É por estas e por outras (situações exemplares e até mais antigas) que a mim me dá para dizer que «já vivii este filme»… E o final não tem sido nada feliz.