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quinta-feira, 10 de abril de 2014

A dimensão «oculta» da Crise

A propósito da Grande Depressão dos anos Trinta do século XX, disse um dia Keynes, de si e dos dirigentes do sistema capitalista. que se tinham envolvido «numa confusão colossal ao errarmos no controle de uma máquina delicada, cujo funcionamento não entendemos».

“The Great Slump of 1930” (1930), in «Essays in Persuasion»



Tendo regressado a Portugal em meados de 1981, fiz em Novembro de 1983 uma breve comunicação ao 2 º Congresso da Associação Portuguesa de Informática relativamente ao uso da Informática para o estudo da tendência decrescente da taxa de lucro. Ao que nos dizem os clássicos da Economia Política, essa tendência é simplesmente o problema fundamental da Economia, quer no seu aspecto de «realidade económica», quer no seu aspecto de «estudo ciêntífico» dessa mesma mesma «realidade». Tendência essa já antes assinalada por Adam Smith e retomada mais tarde por John Maynard Kaynes.

Na comunicação verbal (bastante atabalhoada...) que então tive ocasião de fazer no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, e perante uma vasta audiência muito vagamente interessada, expliquei as razões pelas quais dentro de algum tempo (a minha estimativa era então de cerca de uns 20 anos) e para além do «simples» impacto social e económico das «novas» tecnologias da informação e de automatização de processos, o desemprego sistémico iria ter que aumentar de forma «exponencial». Confesso que não contava – de todo – com os truques da financialização e do recurso sistemático ao crédito «fácil e barato», por parte dos «donos do sistema», para obviar às inelutáveis consequências da queda tendencial da taxa de «lucro sistémico», truque esse que, entretanto, estava já em preparação nos principais países do sistema...

Considerando que há diversas formas de entender ou interpretar a noção de «lucro» («retorno sobre o investimento», lucro «contabilistico», lucro «económico», lucro «normal»...) devo aqui esclarecer que uso aqui a noção de «lucro sistémico» no sentido de «rácio entre, por um lado, o valor acrescido produzido pela totalidade da economia mundial e, por outro lado, a soma dos montantes investidos pela mesma economia mundial, quer em «ordenados, prémios e salários», quer em máquinas, depreciação de estruturas, energia e matérias primas e acessórias. Por outras palavras, perspectivando a economia mundial como se fosse uma única empresa gigantesca que interage com a Natureza utilizando recursos materiais e humanos, e distribuindo depois o resultado excedente dessa interacção com a Natureza, de acordo com determinadas regras do sistema capitalista (que é aquele que continua em vigor).

Uma vez obtido aquele excedente económico global (resultante de todo o «trabalho excedentário produzido pelo «colectivo de trabalhadores»), esse excedente económico global é então assim apropriado e re-distribuido por entre os diversos grupos sociais que constituem o «colectivo dos capitalistas» ou «donos e gestores do Capital», designadamente, «lucros» (em sentido restrito de «excedente apropriado pelas empresas», mais ou menos competitivas), «rendas» (de monopólio), «juros» (de eventual recurso a «financiamentos bancários») e «impostos» (em sentido lato e como contributo para o pagamento das «externalidades» sem as quais a economia real simplesmente não pode funcionar.

Pois bem, voltando então à questão da tendência decrescente da taxa de lucro e suas consequências sociais e económicas, e tal como estava previsto («eu bem avisei»... só que ninguém ligou peva... 8-)...) , tem vindo pois a acentuar-se em todo o mundo o aumento sistémico do desemprego.

Segundo a OIT esse desemprego sistémico1 era de 197.000.000 em 2012, tendo passado para 202.000.000 em 2013, devendo ainda chegar aos 205.000.000 em 2014. Segundo a leitura da OIT, «trata-se do resultado de «feed-back loops» (circuitos de retro-acção positiva) em actuação na economia global: as famílias retraem-se no consumo, as empresas não investem, os bancos não financiam... Em suma «estão todos» a retrair-se, mesmo com as injecções de capital financeiro por parte dos bancos centrais. Mas tudo isso parece ser explicado como se estivéssemos perante uma maldição caída dos céus sobre uma Humanidade pecadora, ou algo assim.

Se descermos do nível analítico à escala da economia global para a escala de análise de cada país concreto, encontraremos aquilo a que os cientistas sociais costumam chamar de «factores intervenientes»... Há países que são auto-suficientes em quase tudo o que é fundamental para uma economia funcionar, há paises que vão funcionando como polos de atracção da actividade económica que continua a haver, há pseudo-países (os chamados «paraísos» ou «refúgios fiscais») que vivem de roubar receitas fiscais a todos os outros países de maior dimensão, há países de economias fragilizadas pela má governação dos respectivos estados, há também países que vão vivendo (bem ou nem tanto assim...) das chamadas «rendas petrolíferas».

Disse mais acima que a própria OIT apontava como indícios da crise do aumento continuado do desemprego que «as famílias retraem-se no consumo, as empresas não investem, os bancos não financiam»... Tudo isso acaba também por ser resumido como sendo o resultado das políticas de austeridade o que, até certa medida, até está certo...

No caso do país português, um outro «factor interveniente» a considerar é o ciclo eleitoral: em vésperas de eleições, os partidos no poder procuram sempre renovar os jogos de sedução e propaganda (cada vez mais mentirosa...) de modo a iludir a cidadania sobre eventuais indicadores de uma «miraculosa recuperação» económica.

Num aparte dir-se-á aqui que esta continuada referência a «milagres», para além de ser uma ofensa a genuínas e respeitáveis crenças de cariz religioso, é capaz de ser um bom indicador do grau de (des)conhecimento ciêntífico sobre a natureza dos fenómenos económicos.

Seja como for, na modesta opinião deste «ilustre desconhecido», pode ser que tenhamos já «batido no fundo», mas duvido. Do ponto de vista de quem nos (des)governa, há sempre algo mais para esgravatar nas reduzidas poupanças das classes trabalhadoras. E, se for mesmo necessário, continuar-se-á a vender património (último recurso para pagar dívidas, legítimas ou ilegítimas, tanto faz...). Se de facto já tivermos «batido no fundo», o problema que então se coloca é o de sabermos se há qualquer hipótese de alguma vez recuperarmos o que nos foi roubado e se alguma vez irá esta comunidade nacional (a que os românticos chamam «Pátria»...) enveredar por caminhos de crescimento e/ou desenvolvimento social e económico.

Com esta ideologia e este tipo de governação, bem podemos esperar sentados.

Repito - na modesta opinião deste «ilustre desconhecido» - se estiver correcto o exercício de análise sobre o comportamento do sistema capitalista apresentado por mim em 1983 e comunicado ao tal congresso da Associação Portuguesa de Informática – então só há dois caminhos para sairmos da CRISE: 
Ou uma redução sistemática (drástica mesmo) dos horários de trabalho, de modo a distribuir os empregos sistémicamente disponíveis pelo maior numero possível de desempregados, 
ou um regresso em força às práticas de fiscalidade progressiva que vigoravam nas décadas de Cinquenta e Sessenta do século XX e que permitam uma redistribuição «coerciva» do rendimento colectivo, 
ou uma combinação desses dois vectores de intervenção
Em qualquer dos casos será sempre necessária uma forte e decidida intervenção estatal nesse sentido. Tudo o mais serão paliativos que poderão ir «amolecendo» ou «anestesiando o doente» sem – de todo – chegar às causas do problema.

É por essas razões que este «ilustre desconhecido» embora conserve uma réstea de esperança, no curto e médio prazo, está algo pessimista. A menos que entretanto haja juízo na cabeça de alguns membros da oligarquia (a verdadeira...) ou que nos poucos países com algum peso na economia mundial onde haja ainda résteas de efectivo «poder de Estado», venha a haver algum sobressalto cívico (por parte de políticos de Esquerda histórica, entretanto «adormecidos») e que leve esses países a arrastar – até pelo exemplo – alguns outros países, na senda do investimento público orientado para satisfação de necessidades sociais.




1Referimo-me aqui a perda de empregos na economia formal, não levando em linha de conta o número (crescente?...) de «pseudo-empregos» em diversas actividades («biscates»...) na chamada «economia infornal»

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Dinâmica Recente do Capitalismo

Parafraseando Hegel, mas também a nossa sabedoria popular, «o que tem que ser, tem muita força»... Lénine dizia algo de semelhante quando dizia algo como «os factos são muito teimosos».
E os factos aí estão...


Dinâmica Recente do Capitalismo
Em 20 frases simples
(e numa perspectiva de poucas décadas)


01. O próprio do capitalismo é crescer e acumular, acumular e crescer.
02. A "cenoura" – motivação – e motor da actividade é a busca de lucro.
03. A taxa de lucro funciona como «acelerador», «travão» e ainda como «caixa de velocidades». Acontece que a taxa de lucro tem períodos de subida, de estagnação e de descida
04. Entretanto o montante dos lucros empresariais repartem-se em: rendas (pagamento aos «senhorios»), juros (pagamento aos «donos do dinheiro») e impostos (pagamento pelos serviços básicos do Estado minimalista).
05. Quando a taxa de lucro começa a descer verifica-se uma busca desenfreada por «saídas» (ou «aplicações»...) para o excedente potencial, com a sua conversão em excedentes financeiros.
06. Assim sendo, quando a TAXA de lucro começa a descer, para manter incólume a MASSA (o montante) dos lucros, o Capital procurará reduzir as transferências para os «senhorios», para os «bancos» e para o Estado… 
07. Como os donos do Capital se combinam/misturam facilmente com os «senhorios» e com os «donos do dinheiro», os «custos» dessa redução sobram naturalmente para a Res Pública.
Daí veio a resultar:
08. Uma exigência de redução nas taxas dos impostos tipo IRC e de IRS aplicáveis aos donos e agentes do Capital.
09. Para facilitar a optimização fiscal, um manipulação e ajuste das normas e padrões de contabilidade.
10. Ainda para facilitar a optimização fiscal, uma exigência da flexibilização dos padrões e enquadramento legal da auditoria.
11. Veio também a liberalização dos movimentos de capitais financeiros o «Bigger Bang» e os «Euromarkets» consagrando o dinheiro virtual sem qualquer controle estatal/nacional.
12. Entretanto... Dos ganhos de produtividade veio a resultar uma «compressão dos salários» e o «desemprego sistémico»... Logo, redução do poder de compra global ou a nível sistémico...
13. Se o sistema reduz o poder de compra agregado, há que facilitar o acesso ao CRÉDITO (como fonte de receita para os bancos).

14. Temos assim uma dupla BIFURCAÇÃO nas Taxas de Juro
Entidades
Bancos Comerciais
Bancos Centrais
Destino
Consumo
Investimento
Efeito
Aumento = Usura
Redução = Quantitative Easing
15. Tivemos assim e também a abolição das Leis da Usura (ou seja, a permissão de taxas de juro sem limitações...)
 16. Daí veio a resultar um aumento exponencial do consumo a crédito e naturalmente o aumento da dívida privada.
17. Da redução das taxas daqueles impostos e da «optimização» fiscal veio a resultar o aumento do défice público, forçando os Estados a «vampirizar» as respectivas Seguranças Sociais.


18. Temos entretanto a inoperância da redução das taxas de juro para o investimento reprodutivo de bens e serviços, pois que «com uma corda não se empurra uma carroça»
19. Na falta de outras «aplicações» e/ou «fontes de rendimento», a «Banca» (em especial na zona Euro...) aproveita para «financiar» a dívida pública...
20. De tudo isto só pode resultar uma propensão para a instabilidade social, o caos e, eventualmente, a guerra...
Dá para perceber, ou é preciso fazer uma diagrama?...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Coisas de longe...

ALGUMAS REFLEXÕES AVULSAS SOBRE DÍVIDA E METÁFORAS

Ainda longe deste «jardim da Europa à beira mar plantado» recebi, de um amigo de longa data, este texto delicioso que parece que volta a circular pela Rede.

«Curso rápido de Economia...
Um viajante chega a um hotel para dormir, mas pede para ver o quarto. Entretanto, entrega ao recepcionista duas notas de 100 euros.
Enquanto o viajante inspecciona os quartos, o gerente do hotel sai a correr com as duas notas de 100€, e vai à mercearia ao lado pagar uma dívida antiga... 
Exactamente de 200 euros. 
Surpreendido pelo pagamento inesperado da dívida, o merceeiro aproveita para pagar a um fornecedor uma dívida que tinha há muito... também de 200 euros.
O fornecedor, por sua vez, pega também nas duas notas e corre à farmácia, para liquidar uma dívida que aí tinha de... 200 euros.
O farmacêutico, com as duas notas na mão, corre disparado e vai a uma casa de alterne ali ao lado, liquidar uma dívida com uma prostituta.... 
Coincidentemente, a dívida era de 200 euros.
A prostituta agradecida, sai com o dinheiro em direcção ao hotel, lugar onde habitualmente levava os seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações. 
Valor total da dívida: 200 euros.
Ela avisa o gerente que está a pagar a conta e coloca as notas em cima do balcão.
Nesse preciso momento, o viajante retorna do quarto, diz não ser o que esperava, pega nas duas notas de volta, agradece e sai do hotel.
Ninguém ganhou ou gastou um cêntimo, porém agora toda a cidade vive sem dívidas, com o crédito restaurado e começa a ver o futuro com confiança!
MORAL DA HISTÓRIA:
NINGUÉM ENTENDE A ECONOMIA! (nem o gajo que escreveu isto!)
E MUITO MENOS EU. MAS FICOU TUDO SALDADO E SEM RECURSO AOS TRIBUNAIS!!! SAFA!!!»
A história está com alguma piada e até tem a sua verosimilhança...

Faltaria apenas acrescentar o pequeno, mas nada insignificante, detalhe da ausência de um banqueiro ou agiota naquela historieta. Tudo ali se passava na base da confiança recíproca entre todos os participantes.

Se juntarmos à história a presença (existência) de um banqueiro ou agiota (esta coisa de eu escrever «banqueiro OU agiota» nem é inocente nem é uma questão de estilo literário...) e pensando na Dívida pública do «nosso» Estado, poderíamos chegar à conclusão  – na nossa vida real da alegadamente nossa «Dívida» objectiva e concreta de 127% do «nosso» PIBde que uma saída para esta crise da dívida será (há-de vir a ser...) a nacionalização da Banca. 
O resto serão detalhes para «contabilistas» armados em políticos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A GRANDE CRISE QUE AÍ VEM... Como se não estivesse à vista de todos


Este documentário já anda na Teia desde há uns meses a esta parte. Está agora disponível com legendas em Castelhano.
Tem muitos aspectos muito interessantes no que diz respeito à superfície visível dos fenómenos da Crise (a perspectiva financeira e seus impactos sobre a Economia).
Mesmo não abordando a causa fundamental -  a incontornável Queda Tendencial da Taxa de Lucro   - vale a pena ver.
 

 
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

CHIPRE - A opinião de um economista heterodoxo, de orientação keynesiana

Sem muitos comentários - e pela sua oportunidade - transcrevo para aqui um breve texto de um blogue de economistas espalahdos por todo o mundo: «Real World Economics»

«Jeroen Dijsselbloem (ministro das finanças da Holanda e presidente do Eurogrupo) fez aquilo que devia ser feito» 
Por Merijnknibbe
Autor participante do blogue da Revista «Real World Economics»

«Chipre está um desastre. A meu ver, foram cometidos muitos erros, por exemplo, durante os anos de expansão de 2004-2007, quando o BCE se recusou a considerar (de modo separado... GFS) os desenvolvimentos em países individuais e, por razões ligadas à teoria económica das «expectativas racionais» (neoliberalismo, digo eu - GFS), equiparou a estabilidade financeira com uma inflação baixa e estável.

E não foi o caso de que ninguém tivesse alertado para isso. Em 2002, Cladio Borio e Philip Lowe (do Banco Internacional de Compensações) alertaram, já em 1992 Wayne Godley tinha alertado. Um subconjunto inteiro de crises económicas recebeu até o nome de Minsky.

Depois da expansão, o BCE falhou ao não implementar taxas de juros reais efectivamente baixas para as famílias e empresas nos países do Sul da Europa – deviam ter comprado muito mais obrigações do Tesouro (daqueles países) e atenção, isso não seria inflacionário numa situação em que o montante do dinheiro M3 na Grécia declinava em cerca de 40%.

Bom, mas não vale a pena chorar sobre triliões estragados. Mas terá Jeroen Dijsselbloem cometido um erro quando afirmou que os depositantes com mais de 100.000 deviam levar uma ripada? Claro que não. Então, por que razão Dijsselbloem levou com toda esta barragem de críticas na imprensa internacional?

Na Irlanda, são os pobres quem, neste momento, aguenta com o pagamento de impostos mais elevados porque os grandes depositantes e detentores de obrigações seniores dos bancos foram ajudados.

Em Chipre, esses grandes depositantes e os obrigacionistas têm que se contentar com “acções Diógenes” (expressão utilizada para referir “acções desvalorizadas”. Nota de GFS).

Então, faço de novo a pergunta: “Por que razão toda gente criticou Dijsselbloem?”»


Notas adicionais de GFS:
1. M3 é o agregado de “moeda” de maior dimensão: Para além das notas e moedas em circulação e montantes de depósitos à ordem, inclui todas as contas de poupanças, depósitos a prazo de menos de 100.000 dólares (...) assim como todos os outros instrumentos monetários como será o caso, por exemplo, de depósitos em eurodólares e depósitos acima dos referidos 100.000 dólares.
2. “Obrigações séniores” são títulos de dívida que têm precedência em caso de falência.
3. Gostava de sublinhar a frase “Na Irlanda, são os pobres quem, neste momento, aguenta com o pagamento de impostos mais elevados porque os grandes depositantes e detentores de obrigações seniores dos bancos foram ajudados”.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sobre a Crise de Sobreprodução...

Escrito em tons de melancolia ao sabor da espuma dos dias...
E algo desapontado com esta chachada toda... É que pregar no deserto cansa...
Entretanto, sonhar (ainda) não é proíbido e para lá de sonhar com o euromilhões haverá também aqueles que sonham com outros tempos e outros mundos, assim como há certamente aqueles a quem não é estranha a frase «o sonho comanda a vida»...
Mas chega de idealismos de «realidades imaginadas» - do tipo retratado no filme Matrix - e procuremos olhar a realidade com que se vão confrontando cada vez mais milhões de famílias por esse mundo.
A mim, às vezes, dá-me para sonhar com um cenário em que as pessoas, em particular aquelas que têm alguma responsabilidade institucional, venham a entender a lógica intrínseca do sistema capitalista.
Que é aquele em que vivemos há várias décadas. 
De há uns anos a esta parte que muitos estudiosos da sociedade, de formação teórica marxista, procuram alertar o mundo para um facto relativamente simples de entender:  estamos todos (o mundo inteiro, o sistema capitalista na sua totalidade) perante uma crise de sobreprodução. 
Mas a realidade objectiva e incontornável é que a esmagadora a maioria das pessoas - aquelas que votam e elegem estes ignorantes e «génios de vistas curtas» para posições de poder político - muito simplesmente não entendem sequer o que significa a expressão  «crise de sobreprodução». 
Se olharmos num qualquer dicionário ou se fizermos uma busca sobre artigos e ensaios publicados onde apareça a expressão  «crise de sobreprodução» ou apenas a palavra  «sobreprodução», verificamos que mesmo em circulos bastante mais esclarecidos há ainda muita confusão, relativamente aos conceitos de causa e efeito, no que diz respeito à Crise.  
Estou aqui a pensar, entre outras, numa confusão do estilo daquela que será evocada pela pergunat tola que alguns pseudo espertinhos fazem quando não têm nada mais engraçado para perguntar, «o que veio primeiro, o ovo ou a galinha»...   
Como deverá ser evidente não é pergunta que se faça seriamente a qualquer aprendiz de Biologia... Entretanto, de vez em quando, vai havendo alguns senhores em posição de destaque no mundo da governação política e das finanças - e que procuram esconder-se por detrás de uma alegada incapacidade da regulação financeira («isto era impossível de prever»...) - que falam em «sistema hiper complexo» (até parece que sabem do que falam...).
Claro que vivemos num mundo hipercomplexo... Mas isso não impede (antes exige) capacidade de análise e de interpretação. E isso significa que se pode (e se deve) seleccionar uma ou duas variáveis específicas, cuja evolução se possa então monitorizar. 
Por exemplo: a «quantidade concreta de coisas» que se vão produzindo; o «poder de compra» que vai estando disponível para comprar («dar vazão»...) a todas essas coisas que se vão produzindo; a(s) taxa(s) de juro(s) praticadas pelos bancos. 
Até aqui são apenas 3 (três...) variáveis...
Podemos acrescentar mais algumas: o «montante do crédito ao consumo» ou o «nível geral do emprego»... 
Depois há também aquilo que alguns analistas chamam de «indicadores secundários»... Como a frequência e dimensão de «Saldos», «Rebajas», «Soldes», «Vertrieb»...
Suspeito que perante uma situação como aquela que vivemos - se isto tudo fosse representado numa peça de teatro escolar - qualquer uma das crianças na plateia, à semelhança daquela criança de «o Rei vai nu...», era capaz de perguntar «e porque é que não produzem menos» ?  
Claro que seria necessário explicar a essa criança que os donos do «teatro» não produziam demais porque fosse essa a sua vontade. Eles só sabiam que tinham produzido demais, depois de o terem feito. 
E que aquilo que aquilo que tinham produzido não lhes interessava, nem muito nem pouco. 
Aquilo que eles tinham querido obter era outra coisa... Uma coisa chamada  lucro.
Mas, continuando a explicar à tal criança, de facto talvez não fosse má ideia produzir um pouco menos.
Para começar a «resolver o problema, claro...
Depois de muitas outras explicações, para as quais não tenho agora muita pachorra, talvez a «minha» criança acabasse por perguntar,
 «QUANDO AS MÁQUINAS FIZEREM QUASE TUDO, O QUE VÃO «ELES» - os donos do Teatro - FAZER COM AS PESSOAS?...»

segunda-feira, 4 de março de 2013

A dívida absurda ou a aberração da dívida

Somos alguns milhões – só em Portugal – a sermos esbulhados, por meio de impostos e contribuições cada vez mais exorbitantes, para pagarmos uma dívida pública «externa» que não contraímos. Alguns papagaios, comentadores e «economistas» de aviário dizem-nos também que «não há alternativa», temos mesmo que pagar («eles emprestaram ou não emprestaram»?...).

Vamos por uns minutos imaginar que esta dívida pública (esta e as outras, dos outros páises todos...) é uma dívida legítima. Que até resulta de empréstimos feitos por entidades que tinham acumulado esses capitais financeiros com toda a legitimidade e, sobretudo, sem terem fugido ao pagamento dos impostos sobre os lucros ao longo de várias décadas. Mesmo assim, nessas hipotéticas circunstâncias de legitimidade, o que me parece mais aberrante (estupidamente aberrante...) é que isso, o pagamento da dívida (se por milagre alguma vez acontecesse...) não serve para nada... 
Ou seja, aquele dinheiro todo «que nos vai sendo emprestado e que nós vamos pagando» não vai ter uma qualquer outra aplicação que não seja voltar a ser emprestado. Acumulando juros e "capital emprestado". 
Quando muito na compra («investimento» dizem eles...) de coisas que já existem... 

Per secula seculorum... Se entretanto os povos não se revoltarem, claro...

Acontece que existe no sistema capitalista um característica muito peculiar e que eu designo por «esgotamento progressivo de oportunidades de investimento». Investimento lucrativo, claro. Não é difícil demonstrar a existência dessa característica, mas isso não cabe agora aqui. Em todo o caso essa demonstração está feita e disponível para quem estiver interessado.

Em consequência desse esgotamento progressivo das oportunidades de investimento, os donos e gestores de todo aquele capital financeirto procuram naturalmente aplicações alternativas. Vamos imaginar que na busca de aplicações financeiras rentáveis conseguem todos os seus objectivos; ou seja a obtenção de oportunidades de aplicação rentável em coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade e que sejam susceptíveis de «compra e venda» (os mercados, sempre os mercados....).

Como vão assinalando os observadores mais atentos, aquelas «coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade» que constituem aquelas oportunidades de investimento e que estão assim «à mão de semear», são a privatização de tudo e mais alguma coisa que compete a um Estado moderno, progressista e com um mínimo de preocupação por tudo quanto é social.

Vamos pois imaginar que eles conseguem privatizar todos os ensinos públicos e todos os serviços nacionais de saúde e que conseguem também privatizar toda a distribuição de água (um monopólio natural por execelência...). Acrescentemos a isso a privatização de portos e transportes (vias férreas e todo o tipo de estradas) e ainda (porque não, já agora...) a privatização da segurança interna e da Justiça.

Vamos então imaginar que com todas essas privatizações, e através da manipulação de preços, os donos do capital financeiro, conseguem obter taxas de lucro melhores do que as «meras« aplicações financeiras. Nessa altura, em vez de nos retirarem «poder de compra» por via dos impostos para «pagarmos a dívida», vão-nos retirar «poder de compra» por via dos preços – que teríamos que pagar – por aqueles serviços que antes eram prestados de modo tendencialmente gratuito pelo Estado.

E depois?...

Nesse cenário de pesadelo absurdo de onde viria o «poder de compra» necessário e suficiente para escoar a oferta daqueles serviços todos?...

É neste contexto que se coloca a questão da aberração do pagamento indefinido de uma dívida absurda. Se os senhores da «troika» e seus mandatários locais (aqui ou na Grécia, por exemplo) tivessem um pingo de bom senso, talvez fosse possível perguntar-lhes «o que vão fazer com o dinheiro dos pagamentos das dívidas públicas»...

Para onde vão todos esses fundos financeiros?... Para que servem?... Em que vão ser aplicados (ou «investidos»)?

Muito provavelmente responderiam que «não temos nada a ver com isso», o dinheiro é deles (ou melhor dos seus patrões...) e eles, os patrões, é que têm que decidir o que querem fazer com os dinheiros que alguém fabricou, sendo que este «fabrico de dinheiro» resultou a partir de lucros empresariais minimanente legitimos (mas sobretudo engordados com o não pagamento de impostos), ou a partir da fabricação de dinheiro ou capital fictício resultante da criação de empréstimos bancários virtuais...

Mas a resposta mais prosaica seria muito provavelmente a de que esses fundos financeiros todos serão de novo aplicados na compra de mais dívida pública...

É evidente que o Planeta está cheio de oportunidades para fazer coisas, úteis e necessárias; desde a regeneração do meio ambiente (o mar e as florestas...) até à renovação de estruturas físicas e desenvolvimento de novas tecnologias de fontes de energia e de aproveitamento «verde» das coisas da Natureza.
Só que isso, tudo isso, cai cada vez mais no âmbito da coisa pública... 
Não constitui oportunidade de investimento que tenha o lucro como objectivo imediato.

Ou seja, o sistema parece ter entrado num beco sem saída. 
Mas «saídas» há: o caos (e a barbárie...) ou o Socialismo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre os porquês «desta» crise

Aqui, ao correr desta mensagem, vou tentar responder a uma questão que muito correctamente me foi colocada por pessoa amiga, a propósito do meu texto «DINÂMICA (recente) DO CAPITALISMO»...
A principal questão colocada seria então a de que «não deveria ter já rebentado esta crise antes? Porquê só agora? Quais as principais razões de contexto que levaram a isto?»
Aquilo que eu procurei resumir naquele meu texto sobre a dinâmica do capitalismo(sob a forma de um esqueleto analítico) é que esta crise estava larvar (submergida, se assim quiserem...) desde há uns 20 (ou mesmo 30...) anos.
A taxa de lucro real - aquela que se exprime em «valores» (não apenas em preços...) - começou a estagnar em meados dos anos Setenta. Lembram-se dos «choques do petróleo» ???
Foi justamente a partir do princípio dos anos Oitenta (Tatcher e Regan...) que começou a espiral do crédito fácil (mas caro...) e da evasão fiscal (a maioria dos paraísos ou refúgios fiscais foi criada a partir dessa altura). A desregulação bancária - de que a criação do «euromarket» (mercado «europeu» de dólares) foi o principal instrumento - vem também desses tempos do contra-ataque neoliberal e anti-keynesiano. Hoje, cerca de 90% dos empréstimos, financiamentos e transacções mundiais são processados através daqule «euromarket».
Ou seja, a cosmética financeira permitiu - durante uns trinta anos - «disfarçar» a crise. Até que já não havia mais como «disfarçar». E é nisso que estamos hoje.
De resto a «ganância» dos banqueiros e a imprevidência ou «falta de responsabilidade» dos gestores dos fundos de investimento são apenas epifenómenos e efeitos da lógica intrínseca do sistema: a procura do lucro e sua maximização.
Uma nota final (a pensar em engenheiros...): sendo a economia um sistema complexo, os mecanismos de transmissão funcionam de modo assíncrono e com diversas temporalidades... Por exemplo, é muito mais fácil «fechar uma loja de esquina» do que «interromper um investimento mineiro». E, no caso dese tipo de investimentos, há ainda a considerar todas as implicações estruturais a montante e a jusante... Mas, entretanto, a produção de valor acrescido e a evolução da taxa de lucro sistémica não pára de continuar a evoluir, a evoluir, a evoluir... Até se atingir aquilo a que os físicos chamam de «transição de fase»...

A Propósito de Disparates e Ironias

Ou de como se confirma - mais uma vez - que «os economistas convencionais percebem tanto de economia como os doutores da Santa Madre Igreja que condenaram Galileu percebiam de Astronomia»....
Em 22 de Novembro, o professor doutor João César das Neves publica no Diário de Notícias um artigo com um título de «Contágio» onde refere os «disparates extremistas e irónicos do Bloco de Esquerda e indica a «falta de confiança» como o mal que nos aflige a todos. Como se «isto» da Economia fosse só (e sobretudo, pelos vistos...) uma questão de «confiança» e entusiasmo (digo eu, agora). Como se não houvesse razões lógicas e objectivas para a CRISE. Refere também «bloggers desconhecidos» como se para se ter razão no mundo ciêntífico, o ter-se «tempo de antena» fosse condição sine qua non para se estar certo. De facto já Disraeli dizia que «quem controla a informação, controla a realidade».
Como será evidente, cada autor tem pleno direito às suas patetices, disparates e ironias... Já no que diz respeito à acuidade científica daquilo que se afirma sobre a economia só os factos poderão vir a servir de juiz definitivo. Pela minha parte não consigo – e já procurei – qualquer documento publicado pelo Professor Doutor João César das Neves em que ele tivesse sido capaz de ter antecipado (ou visto chegar) esta crise...
O facto de o referido doutor ter muito tempo de antena não lhe dá qualquer maior crédito no mundo das ciências, sendo que neste caso a risota é bastante generalizada – à escala mundial - entre outros académicos (físicos, biólogos, químicos, astrónomos....) sobre as pretensões «científicas» dos nossos «economistas convencionais»...
O próprio doutor João César das Neves reconhece (ainda que implicitamente) o desvario e atrapalhação dos nossos «economistas convencionais» quando diz esta coisa deliciosa:
«No fundo dá-nos gozo ver os políticos às aranhas incapazes de solucionar a crise», pois que, convém não esquecer os «políticos» que agora nos desgovernam – aqui como em quase todo o mundo – são quase todos «economistas convencionais»... Faltaria ao doutor João César das Neves acrescentar que «eles andam às aranhas incapazes de solucionar a crise» porque se calhar não percebem patavina de Economia.
Era bonito. Por outro lado, na sua contundente crítica ao Bloco de Esquerda (onde pontifica um outro ilustre professor doutor em Economia) e aos bloggers desconhecidos , deixa de fora o PCP.
Terá sido por esquecimento ou achará ele que, afinal, os economistas não convencionais que pontificam no PCP se calhar até têm razão naquilo que vão escrevendo sobre as saídas para a crise?...