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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dizem que anda por aí um «novo Marx»

A propósito de um livro de Thomas Picketty
Mão amiga fez-me chegar «'às mãos» - por via electrónica – um artigo de Sérgio Aníbal publicado no jornal PÚBLICO em 24 de Maio (se não estou em erro).
Tem por título «Anda por aí um novo Marx»... Referindo-se ao ultimo grito dos sucessos editoriais – eu invejoso me confesso – o livro de Thomas Picketty, «Capital no Século XXI»
Segundo nos diz Sérgio Aníbal, «"Maior livro da última década” e “brilhantemente revolucionário” ou “lengalenga ideológica bizarra” e “espantosamente ignorante” foram alguns dos adjectivos usados para descrever a obra de Piketty».
Confesso que já ando a ficar «excitado» (para não dizer «farto»...) com esta mania do «novo Marx»...
Ainda não tive pachorra (se chegar a ter...) para ler o referido livro e portanto estas reflexões são elaboradas para serem lidas (se isso chegar a acontecer, claro...) com algum «sal e pimenta»...
Thomas Pickety - por aquilo que já li – conseguiu coligir informação mais do que suficiente para demonstrar – empiricamente – aquilo que muitos andam a denunciar há décadas: as desigualdades crescentes na distribuição da riqueza global.  Só por isso já valeu a pena o trabalho de Thomas Picketty.
Mas, no que diz respeito a explicação teórica sobre as causas dessa crescente desigualdade parece confundir «efeitos» com «causas»... Talvez seja por isso que se sente - dizem - pouco confortável com a comparação com Marx.
Passo a citar de novo o autor do artigo
«A fórmula, a mais discutida no debate económico dos últimos meses, escreve-se como r>g, em que r é a taxa de retorno do capital e g é a taxa de crescimento da economia. A tendência de longo prazo, diz Piketty, é a de que r supera g»...
Por outras palavras, a tendência de longo prazo, dizem que diz Picketty, é a de que «a taxa de lucro excede a taxa de crescimento da economia como um todo»...
Como explicação para um fenómeno historicamente recorrente (ou seja, não é sempre assim...), é caso para dizer. NADA DE MAIS ERRADO!...
Em primeiro lugar não vi ainda qualquer referência ao caracter oscilatório (e dinâmico) das «ondas de evolução» da história económica... Ondas de Kuznetts, ou de outros quaisquer... 
Por coincidência ando já há umas semanas a reler – paulatinamente - um livro que li já há uns 20 anos justamente sobre esta temática. «The Long Wave in the World Economy» de Andrew Tylecote. Este autor afirma-se como «não marxista» (e de facto não é...), mas isso não impede que o livro contenha muita informação interessante e reflexões válidas sobre a noção de «onda» na evolução da Economia global.
Voltando ao livro de Picketty, este outro autor, pelos vistos, não explica - ou não aborda - porque razão às vezes as «coisas» sobem e às vezes as «coisas» descem...
O que verdadeiramente acontece é que quando a taxa de crescimento da economia começa a abrandar (por via do esgotamento progressivo das oportunidades de investimento - é como eu prefiro designar a famigerada «lei da queda tentencial da taxa de lucro»...) o grau de apropriação do valor excedente que vai sendo criado por parte dos «donos» e «gestores» do sistema, esse grau de apropriação, começa - necessariamente - a aumentar. Por outra palavras, se o «bolo» aumenta «mais devagarinho» - e quem parte e reparte e não fica com a melhor parte (...) -  então aquilo que sobra para os «outros» é necessariamente mais relativamente reduzido... «Elementar meu caro Watson»...
Repito, salvo uma leitura integral do livro do Picketty - não sei se terei pachorra - por aquilo que já li (que foi apenas o «quanto baste»...) Picketty confunde «efeitos» com «causas»...
Segundo também li, Thomas Picketty, para se distanciar de Karl Marx (não era preciso...) terá afirmado algo como «que nem sequer tinha conseguido ler "O Capital" até ao fim»... Pois... ler - e compreender - Marx (e a sua análise do Capitalismo!...) é de facto uma chatice...Mas não precisava de ser!
 http://www.publico.pt/economia/noticia/anda-por-ai-um-novo-marx-1637139
 
 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

SOBRE A ORIGEM DO LUCRO

«De volta à «origem» do lucro - Jean -Marie Harribey
Tal uma má consciência , a questão da origem do lucro regressa periodicamente ao debate teórico. De cada vez, é uma oportunidade para desenterrar Marx, o pai da mais controversa explicação do lucro, e de o enterrar outra vez logo em seguida porque o seu modo de tirar a teoria do lucro do quadro estrito da economia não é admissível para a grande maioria dos economistas. Nas últimas décadas, vimos a onda de discussões dos anos 1960-1970 em volta do problema dito da transformação, depois de Sraffa ter expressado correctamente um sistema de preços de produção. Essas discussões levaram à constatção de que eram considerados dois tipos de soluções para aquele problema: uma, que vai de Bortkiewicz, Seton e Morishima, que não aceita os conceitos de Marx (soma dos valores = soma dos preços na produção e soma das mais-valias = soma dos lucros ), e outra, enunciada quase simultaneamente por Dumenil, Foley e Lipietz, restabelecendo o conjunto da problemática de Marx. Houve a partir daí, na década de 1980, um interesse renovado na questão da origem do lucro quando a teoria keynesiana do circuito enfatizou a antecipação do lucro por meio da criação de monetária de dinheiro que permite acumulação de capital. Recentemente, Henri Denis voltou a repetidamente a este lancinante problema para refutar a teoria do sobre-valor de Marx e restaurar a honra uma tese de Kalecki que Boulding havia reformulado em 1950 ao localizar a fonte de lucro no... lucro.»

Uma coisa que talvez surpreenda muito boa gente é o facto (insólito?...) de que os «economistas convencionais» (os da linha principal, quase sempre alinhados com a «engenharia social» do neoliberalismo e as respectivas e actuais políticas de austeridade), não são capazes, esses economistas, de explicar (enfâse no "explicar") a ORIGEM do lucro.
Por outro lado, salvo algumas e eventualmente raríssimas excepções, os referidos «economistas convencionais» nunca leram qualquer coisa escrita por Karl Marx relativamente ao funcionamento da economia capitalista. Alguns terão lidos criticas em segunda ou terceira mão dizendo (explicando, demonstrando...) que Marx «estava errado» e ficam-se por aí... Por vezes admitem que terá sido uma personalidade incontornável no campo das ciências sociais, mas como «economics não é uma ciência social», não vale a pena um economista digno do seu nome perder muito tempo com isso... Se um qualquer prémio «"Nobel" de Economia» diz que a análise de «O Capital» está errada não vale certamente a pena perder muito tempo com isso...
E, no entanto, se se dessem ao trabalho de estudar os apontamentos que Marx foi elaborando ao longo da vida – e vertidos em forma de livro – sobre a lógica de funcionamento do sistema capitalista, talvez viessem lá a encontrar alguns argumentos interessantes para defender os seus interesses de classe: uma explicação marxista da origem do lucro, sem recorrer a alguns conceitos «perigosos», tais como «luta de classes», «valor acrescido» (vulgo, «mais-valia»), trabalho excedente, e sobretudo o conceito de «exploração» (essa coisa abjecta e ultrapassada que os empresários capitalistas, mais honestos e cumpridores, nunca fazem...)
Então é assim: a certa altura, no capítulo XIII, do Volume I de «O Capital), dedicado à Cooperação, vem este parágrafo prenhe de ilações. 

«A força produtiva que o trabalhador desenvolve como trabalhador social é, portanto, força produtiva do capital. A força produtiva social do trabalho desenvolve-se gratuitamente tão logo os trabalhadores são colocados sob determinadas condições, e o capital os coloca sob essas condições. Uma vez que a força produtiva social do trabalho não custa nada ao capital e, por outro lado, não é desenvolvida pelo trabalhador, antes que seu próprio trabalho pertença ao capital, ela aparece como força produtiva que o capital possui por natureza, como sua força produtiva imanente.»
Em «O Capital - Capítulo XIII - A Cooperação».

Como disse mais acima, um dos problemas fundamentais que (não) aflige os economistas convencionais é a explicação da origem do lucro. Como aparece e de onde vem...
Aquilo que se encontra com toda a naturalidade e frequência é a justificação do lucro. Designadamente o facto de os empresários assumirem riscos e, portanto, o lucro ser para eles e seus apologistas «o prémio legítimo do risco assumido». Mas, sobre como é que ele aparece, como é que o risco em si mesmo é uma causa do lucro, sobre isso não se contram grandes (poucas ou nenhumas...) explicações.
Pois bem, se aqueles senhores se dessem ao trabalho se estudar o Capital, da mesma maneira que muitos (quase todos?...) os economistas de formação técnica marxista, estudam o marginalismo, o utilitarismo, o monetarismo (e outros "ismos" colaterais...) talvez encontrassem naquele parágrafo escrito pela mão de Marx uma explicação razoável e perfeitamente lógica e coerente para explicar a emergência de um valor acrescido («sem exploração»...) e que corresponderia ao aparecimento de um montante extra de riqueza social a que depois – em regime capitalista - chamamos «lucro». A emergência de uma parte do montante adicional de riqueza gerada pelo trabalho assalariado («valor acrescentado», «valor acrescido», «sobre-valor», «excedente económico» ou ainda «mais-valia»... ou como lhe queiranm chamar...) teria assim origem naquilo a que agora se chama – em teorias e técnicas de gestão - «efeito de sinergia». Ou seja, pelo menos uma parte do lucro poderia (ênfase no «poderia») ser explicado também como resultado da sinergia do trabalho em conjunto. E não necessariamente como resultado da exploração.
Este efeito de sinergia (e o efeito da presença de «um outro» a emular) tem sido demonstrado em várias experiências de psicologia social, incluindo experiências com diversos tipos de animais. Até baratas... Observou-se mesmo que o simples facto de haver espectadores – que proporcionem aquilo a que se chama «reforço positivo» - leva a um maior desempenho por parte do grupo observado. 

Observações
Disponível em PDF - http://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CDEQFjAA&url=http%3A%2F%2Fharribey.u-bordeaux4.fr%2Ftravaux%2Fvaleur%2Fprofit.pdf&ei=OJ6MU4blIajI0wXe_YGABg&usg=AFQjCNHvugP-Et3mzfpU2SzaosG_Xe6wcg&sig2=EwRHFc36LB52s-LlgQ25eg&bvm=bv.67720277,d.d2k
Este parágrafo aqui por mim sublinhado a «amarelo claro» podia ser utilizado pelos apologistas do Capital como uma legítima explicação para a emergência do Lucro... Em vez de se perderem nos meandros das justificações moralistas do «lucro como prémio pela assunção de risco»... GFS Na edição «Penguin Classics» encontra-se na página 451. Na edição «Garnier Flammarion» encontra-se na página 247. Curiosamente esta versão em Inglês utiliza o termo «inerente» (inherent») enquanto que a versão em Francês utiliza de facto o termo «imanente». O termo «imanente» aparece também na versão em Inglês disponível na Rede em formato PDF, e acessível aqui
https://www.google.pt/search?q=Capital+Marx+Book+1&ie=utf-8&oe=utf-8&aq=t&rls=org.mozilla:pt-PT:official&client=firefox-a&channel=np&source=hp&gfe_rd=cr&ei=zluHU42QAeze8gfUqIDICw



 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Estudar Marx de «pernas para o ar» ?...

Esboço de uma comunicação a fazer um dia, se...
Aquela que é talvez uma das mais citadas frases de Marx é aquela em que diz algo como ter encontrado Hegel de «pernas para o ar» (em rigor aquilo que Marx diz é que em Hegel era a dialéctica que estava de pernas para o ar...)
«The mystification which dialectic suffers in Hegel’s hands, by no means prevents him from being the first to present its general form of working in a comprehensive and conscious manner. With him it is standing on its head. It must be turned right side up again, if you would discover the rational kernel within the mystical shell.» em «Pósfácio à segunda edição alemã de O Capital Volume I»
http://www.marxists.org/archive/marx/works/1867-c1/p3.htm

No contexto dos actuais (e sempre oportunos) congressos e conferências sobre a obra de Karl Marx, designadamente seminários sobre a leitura crítica de «O Capital», ocorre dizer que talvez algo de semelhante se possa fazer em relação à obra de Marx.

Imagino que um estudante pós-graduado em ciências físicas possa querer elaborar um trabalho sobre o conteúdo textual dos «Princípios Matemáticos da Filosofia Natural» de Newton ou sobre os cadernos de apontamentos de Einstein, mas a verdade factual é que um engenheiro físico pode fazer um doutoramento na sua área de conhecimento servindo-se apenas das fórmulas fundamentais dos cientistas físicos que nos precederam na história da ciência. Poderão eventualmente dedicar-se a uma exege dos textos daqueles e outros físicos de renome mundial, mas a verdade é que para projectar o lançamento de satélites artificiais o que têm mesmo que estudar é Química e Física aplicadas, sem terem muito que se preocupar com os percursos intelectuais de quem descobriu as leis da Física e da Química que rotineiramente utilizam nos seus cálculos.
No caso da Economia Política a coisa não é bem assim. No que respeita à disciplina designada por «economics» nem vale a pena falar... é uma ieologia matematicamente pura (na feliz expressão de Alan Freeman) e estará tudo dito.
Voltando à minha ideia de que, se calhar, seria recomendável «dar um piparote» na obra de Marx e colocá-la com as pernas no chão, devo lembrar que uma parte significativa dos escritos de autores marxistas é sobre explicações e polémicas sobre aquilo que Marx (e Engels) disseram ou deixaram de dizer, aquilo que «de facto» queriam dizer ou ainda o significado, implícito ou explicito, desta ou daquela tese ou afirmação dos autores originais do marxismo. Em suma, exercícios de exegese, ou seja a interpretação profunda dos textos de Marx e Engels.
Não posso afirmar que se trate da maioria dos casos mas, de entre as várias centenas de páginas que tenho lido sobre o assunto, a maioria esmagadora dos textos são isso mesmo: discussões sobre aquilo que Marx escreveu ou deixou de escrever.
Pela minha parte acho que seria muito mais útil para o combate necessário e urgente contra a ideologia da tal disciplina que dá pelo nome de «economics»1 estudar «economia política aplicada» a partir da fórmula fundamental («Marx dixit»...), a qual fórmula é aquela que explica o comportamento dinâmico do sistema capitalista: «a taxa de lucro é igual à taxa de valor acrescido a dividir pelo indíce de capital constante mais um».  Ou em «matematiquês» corrente, «r = e / k + 1».
Uma cantilena correspondente no campo da Física seria aquela que diz «matéria atrai matéria na razão directa das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias».
Por outras palavras, em vez de «perder tempo» a discutir a interpretação (certa ou errada) dos escritos de Marx, começar a estudar a realidade económica com que nos defrontamos a partir da conclusão (final e definitiva) a que chegou Marx. 
Ou seja, de certa forma, estudar Marx «de trás para a frente»...
Como a esperança é (ou devia ser...) a última coisa a morrer, ainda pode ser que venha a assistir ao cenário social de haver aulas de teoria económica onde se explique tudo isto com o detalhe necessário e suficiente para os nossos economistas serem capazes de serem mesmo «cientistas sociais», aptos a prever as grandes linhas de evolução da economia.
1A ver se beneficiam do prestígio de «Phisics»...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A dimensão «oculta» da Crise

A propósito da Grande Depressão dos anos Trinta do século XX, disse um dia Keynes, de si e dos dirigentes do sistema capitalista. que se tinham envolvido «numa confusão colossal ao errarmos no controle de uma máquina delicada, cujo funcionamento não entendemos».

“The Great Slump of 1930” (1930), in «Essays in Persuasion»



Tendo regressado a Portugal em meados de 1981, fiz em Novembro de 1983 uma breve comunicação ao 2 º Congresso da Associação Portuguesa de Informática relativamente ao uso da Informática para o estudo da tendência decrescente da taxa de lucro. Ao que nos dizem os clássicos da Economia Política, essa tendência é simplesmente o problema fundamental da Economia, quer no seu aspecto de «realidade económica», quer no seu aspecto de «estudo ciêntífico» dessa mesma mesma «realidade». Tendência essa já antes assinalada por Adam Smith e retomada mais tarde por John Maynard Kaynes.

Na comunicação verbal (bastante atabalhoada...) que então tive ocasião de fazer no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, e perante uma vasta audiência muito vagamente interessada, expliquei as razões pelas quais dentro de algum tempo (a minha estimativa era então de cerca de uns 20 anos) e para além do «simples» impacto social e económico das «novas» tecnologias da informação e de automatização de processos, o desemprego sistémico iria ter que aumentar de forma «exponencial». Confesso que não contava – de todo – com os truques da financialização e do recurso sistemático ao crédito «fácil e barato», por parte dos «donos do sistema», para obviar às inelutáveis consequências da queda tendencial da taxa de «lucro sistémico», truque esse que, entretanto, estava já em preparação nos principais países do sistema...

Considerando que há diversas formas de entender ou interpretar a noção de «lucro» («retorno sobre o investimento», lucro «contabilistico», lucro «económico», lucro «normal»...) devo aqui esclarecer que uso aqui a noção de «lucro sistémico» no sentido de «rácio entre, por um lado, o valor acrescido produzido pela totalidade da economia mundial e, por outro lado, a soma dos montantes investidos pela mesma economia mundial, quer em «ordenados, prémios e salários», quer em máquinas, depreciação de estruturas, energia e matérias primas e acessórias. Por outras palavras, perspectivando a economia mundial como se fosse uma única empresa gigantesca que interage com a Natureza utilizando recursos materiais e humanos, e distribuindo depois o resultado excedente dessa interacção com a Natureza, de acordo com determinadas regras do sistema capitalista (que é aquele que continua em vigor).

Uma vez obtido aquele excedente económico global (resultante de todo o «trabalho excedentário produzido pelo «colectivo de trabalhadores»), esse excedente económico global é então assim apropriado e re-distribuido por entre os diversos grupos sociais que constituem o «colectivo dos capitalistas» ou «donos e gestores do Capital», designadamente, «lucros» (em sentido restrito de «excedente apropriado pelas empresas», mais ou menos competitivas), «rendas» (de monopólio), «juros» (de eventual recurso a «financiamentos bancários») e «impostos» (em sentido lato e como contributo para o pagamento das «externalidades» sem as quais a economia real simplesmente não pode funcionar.

Pois bem, voltando então à questão da tendência decrescente da taxa de lucro e suas consequências sociais e económicas, e tal como estava previsto («eu bem avisei»... só que ninguém ligou peva... 8-)...) , tem vindo pois a acentuar-se em todo o mundo o aumento sistémico do desemprego.

Segundo a OIT esse desemprego sistémico1 era de 197.000.000 em 2012, tendo passado para 202.000.000 em 2013, devendo ainda chegar aos 205.000.000 em 2014. Segundo a leitura da OIT, «trata-se do resultado de «feed-back loops» (circuitos de retro-acção positiva) em actuação na economia global: as famílias retraem-se no consumo, as empresas não investem, os bancos não financiam... Em suma «estão todos» a retrair-se, mesmo com as injecções de capital financeiro por parte dos bancos centrais. Mas tudo isso parece ser explicado como se estivéssemos perante uma maldição caída dos céus sobre uma Humanidade pecadora, ou algo assim.

Se descermos do nível analítico à escala da economia global para a escala de análise de cada país concreto, encontraremos aquilo a que os cientistas sociais costumam chamar de «factores intervenientes»... Há países que são auto-suficientes em quase tudo o que é fundamental para uma economia funcionar, há paises que vão funcionando como polos de atracção da actividade económica que continua a haver, há pseudo-países (os chamados «paraísos» ou «refúgios fiscais») que vivem de roubar receitas fiscais a todos os outros países de maior dimensão, há países de economias fragilizadas pela má governação dos respectivos estados, há também países que vão vivendo (bem ou nem tanto assim...) das chamadas «rendas petrolíferas».

Disse mais acima que a própria OIT apontava como indícios da crise do aumento continuado do desemprego que «as famílias retraem-se no consumo, as empresas não investem, os bancos não financiam»... Tudo isso acaba também por ser resumido como sendo o resultado das políticas de austeridade o que, até certa medida, até está certo...

No caso do país português, um outro «factor interveniente» a considerar é o ciclo eleitoral: em vésperas de eleições, os partidos no poder procuram sempre renovar os jogos de sedução e propaganda (cada vez mais mentirosa...) de modo a iludir a cidadania sobre eventuais indicadores de uma «miraculosa recuperação» económica.

Num aparte dir-se-á aqui que esta continuada referência a «milagres», para além de ser uma ofensa a genuínas e respeitáveis crenças de cariz religioso, é capaz de ser um bom indicador do grau de (des)conhecimento ciêntífico sobre a natureza dos fenómenos económicos.

Seja como for, na modesta opinião deste «ilustre desconhecido», pode ser que tenhamos já «batido no fundo», mas duvido. Do ponto de vista de quem nos (des)governa, há sempre algo mais para esgravatar nas reduzidas poupanças das classes trabalhadoras. E, se for mesmo necessário, continuar-se-á a vender património (último recurso para pagar dívidas, legítimas ou ilegítimas, tanto faz...). Se de facto já tivermos «batido no fundo», o problema que então se coloca é o de sabermos se há qualquer hipótese de alguma vez recuperarmos o que nos foi roubado e se alguma vez irá esta comunidade nacional (a que os românticos chamam «Pátria»...) enveredar por caminhos de crescimento e/ou desenvolvimento social e económico.

Com esta ideologia e este tipo de governação, bem podemos esperar sentados.

Repito - na modesta opinião deste «ilustre desconhecido» - se estiver correcto o exercício de análise sobre o comportamento do sistema capitalista apresentado por mim em 1983 e comunicado ao tal congresso da Associação Portuguesa de Informática – então só há dois caminhos para sairmos da CRISE: 
Ou uma redução sistemática (drástica mesmo) dos horários de trabalho, de modo a distribuir os empregos sistémicamente disponíveis pelo maior numero possível de desempregados, 
ou um regresso em força às práticas de fiscalidade progressiva que vigoravam nas décadas de Cinquenta e Sessenta do século XX e que permitam uma redistribuição «coerciva» do rendimento colectivo, 
ou uma combinação desses dois vectores de intervenção. 
Em qualquer dos casos será sempre necessária uma forte e decidida intervenção estatal nesse sentido. Tudo o mais serão paliativos que poderão ir «amolecendo» ou «anestesiando o doente» sem – de todo – chegar às causas do problema.

É por essas razões que este «ilustre desconhecido» embora conserve uma réstea de esperança, no curto e médio prazo, está algo pessimista. A menos que entretanto haja juízo na cabeça de alguns membros da oligarquia (a verdadeira...) ou que nos poucos países com algum peso na economia mundial onde haja ainda résteas de efectivo «poder de Estado», venha a haver algum sobressalto cívico (por parte de políticos de Esquerda histórica, entretanto «adormecidos») e que leve esses países a arrastar – até pelo exemplo – alguns outros países, na senda do investimento público orientado para satisfação de necessidades sociais.




1Referimo-me aqui a perda de empregos na economia formal, não levando em linha de conta o número (crescente?...) de «pseudo-empregos» em diversas actividades («biscates»...) na chamada «economia infornal»

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Dinâmica Recente do Capitalismo

Parafraseando Hegel, mas também a nossa sabedoria popular, «o que tem que ser, tem muita força»... Lénine dizia algo de semelhante quando dizia algo como «os factos são muito teimosos».
E os factos aí estão...


Dinâmica Recente do Capitalismo
Em 20 frases simples
(e numa perspectiva de poucas décadas)


01. O próprio do capitalismo é crescer e acumular, acumular e crescer.
02. A "cenoura" – motivação – e motor da actividade é a busca de lucro.
03. A taxa de lucro funciona como «acelerador», «travão» e ainda como «caixa de velocidades». Acontece que a taxa de lucro tem períodos de subida, de estagnação e de descida
04. Entretanto o montante dos lucros empresariais repartem-se em: rendas (pagamento aos «senhorios»), juros (pagamento aos «donos do dinheiro») e impostos (pagamento pelos serviços básicos do Estado minimalista).
05. Quando a taxa de lucro começa a descer verifica-se uma busca desenfreada por «saídas» (ou «aplicações»...) para o excedente potencial, com a sua conversão em excedentes financeiros.
06. Assim sendo, quando a TAXA de lucro começa a descer, para manter incólume a MASSA (o montante) dos lucros, o Capital procurará reduzir as transferências para os «senhorios», para os «bancos» e para o Estado… 
07. Como os donos do Capital se combinam/misturam facilmente com os «senhorios» e com os «donos do dinheiro», os «custos» dessa redução sobram naturalmente para a Res Pública.
Daí veio a resultar:
08. Uma exigência de redução nas taxas dos impostos tipo IRC e de IRS aplicáveis aos donos e agentes do Capital.
09. Para facilitar a optimização fiscal, um manipulação e ajuste das normas e padrões de contabilidade.
10. Ainda para facilitar a optimização fiscal, uma exigência da flexibilização dos padrões e enquadramento legal da auditoria.
11. Veio também a liberalização dos movimentos de capitais financeiros o «Bigger Bang» e os «Euromarkets» consagrando o dinheiro virtual sem qualquer controle estatal/nacional.
12. Entretanto... Dos ganhos de produtividade veio a resultar uma «compressão dos salários» e o «desemprego sistémico»... Logo, redução do poder de compra global ou a nível sistémico...
13. Se o sistema reduz o poder de compra agregado, há que facilitar o acesso ao CRÉDITO (como fonte de receita para os bancos).

14. Temos assim uma dupla BIFURCAÇÃO nas Taxas de Juro
Entidades
Bancos Comerciais
Bancos Centrais
Destino
Consumo
Investimento
Efeito
Aumento = Usura
Redução = Quantitative Easing
15. Tivemos assim e também a abolição das Leis da Usura (ou seja, a permissão de taxas de juro sem limitações...)
 16. Daí veio a resultar um aumento exponencial do consumo a crédito e naturalmente o aumento da dívida privada.
17. Da redução das taxas daqueles impostos e da «optimização» fiscal veio a resultar o aumento do défice público, forçando os Estados a «vampirizar» as respectivas Seguranças Sociais.


18. Temos entretanto a inoperância da redução das taxas de juro para o investimento reprodutivo de bens e serviços, pois que «com uma corda não se empurra uma carroça»
19. Na falta de outras «aplicações» e/ou «fontes de rendimento», a «Banca» (em especial na zona Euro...) aproveita para «financiar» a dívida pública...
20. De tudo isto só pode resultar uma propensão para a instabilidade social, o caos e, eventualmente, a guerra...
Dá para perceber, ou é preciso fazer uma diagrama?...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Afinal ainda mais um esclarecimento

A situação inicial
Na janela proposta aqui para que se façam «experiências» sobre a possível evolução da taxa de lucro - variável determinante do comportamento de todos os agentes económicos e do sistema como um todo -
Trata-se, naturalmente, de uma situação hipotética que pretende representar um «capitalismo abstracto subjacente ao capitalismo real» de fins do século XVIII. Nisso sigo o autor Ronald Meek (Economics and Ideology and Other Essays, 1967).
Temos então que o capital total à disposição do «capitalista colectivo» aparece aqui como sendo constituído por 12.000 «unidades». 
Estas 12.000 «unidades», tanto podem ser expressas sob a forma de «o resultado acumulado de uns tantos milhares de horas de trabalho» como «X toneladas de "alimentos" mais Y «unidades de ferramentas».
A relação aqui assumida - nesta hipotética situação inicial - é a de 1 (uma) unidade de «capital-máquina» (ou capital constante) para 5 (cinco) unidades de capital-pessoas (ou capital variável).
Presume-se também que o colectivo das pessoas trabalhadoras, trabalhando 10 horas por dia, produz o suficiente para que esse «colectivo» se mantenha vivo e activo, assim como o suficiente para a sua reprodução geracional, e  ainda mais «alguma coisa» que reverte para os «capitalista colectivo» (ou «factor capital»).
É a esse excedente (que reverte para o «capitalista colectivo») a dividir pela totalidade (as tais 12.000 «unidades») inicialmente «investida» que se chama aqui «taxa de lucro sistémico».
O qual «lucro sistémico» é depois disfarçado, camuflado e recoberto de mil roupagens e maquilhagens de cosméticas pseudo-financeiras, ao ponto de se travestirem prejuízos sistémicos em lucros bolsistas.  
Houve um dia em que um meu amigo (professor universitário de matemática) depois de «olhar para isto» fez «quase de imediato» a observação (ou algo assim...) de que «a solução para o sistema funcionar equilibradamente, era reduzir os tempos de trabalho»
Agora procurem lá explicar isto aos «economistas» CONVENCIONAIS que nos desgovernam. Ou então, procurem explicar o significado da expressão: «actuar na conjuntura tendo em conta a estrutura do sistema»
E depois disto, começo a pensar que é mais fácil explicar as minudências da mecânica quântica, o «entrelaçamento das partículas subatómicas» ou a experiência da suposta «dualidade partícula-onda», do que explicar estas coisas da economia política. 
Se calhar o Lénine é que tinha razão: para perceber isto tudo, se calhar, primeiro é preciso estudar a «Ciência da Lógica» de Hegel...

sábado, 11 de maio de 2013

A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 5

Para concluir os esclarecimentos...
Com base nas indicações feitas nas mensagens anteriores espera-se que os observadores deste blogue – quaisquer outros visitantes – sintam interesse em «brincar» com o (MUITO) rudimentar modelo aqui proposto.
Reproduzo aqui, de novo, o gráfico inicial – que é o resultado de uma «simulação» efectuada. Podem experimentar outros números, mas atenção que uma casa centesimal (estamos a falar de efeitos ao longo de muitas décadas) pode fazer toda a diferença.
Assim, nesta simulação, considerei que haveria (teria havido...) ao longo dos dois últimos séculos uma taxa média de refluxo de 1,5% (ano, após ano...); um impacto (ou crescimento) médio de 2,8% na produtividade agregada e uma taxa de destruição de valor («ocasional»... as guerras...) de 25%.
No gráfico aqui exibido pode ver-se a situação subjacente à ocorrência de graves crises sistémicas em intervalos variáveis, mas também com alguma regularidade. Um historiador poderá pensar aqui em anos de referência como «1840«, «1875», «1929» ou «1975»...
Ou então lembrar a famosa «Onda de Kondratieff».
Tanto quanto eu saiba, o único economista que considerou a hipótese de a oscilação da taxa de lucro estar subjacente à «Onda de Kondratieff» foi Ernest Mandel. De resto não encontrei mais qualquer referência na literatura consultada.
Claro que faltaria MUITO para melhorar este modelo.
Mas com os meios disponíveis (e a carolice de um voluntário em «part-time» esporádico) é o que se pôde arranjar. Nesse contexto não posso deixar de registar o meu agradecimento ao meu amigo e ex-colega de estudo António Figueras,  (doutorando em Ciências da Complexidade), pela disponibilidade e trabalho efectuado na programação do modelo aqui apresentado.

Coisas mais que se possam via a fazer...
Desde logo, afinar os critérios que levam o sistema programado a despoletar um subprocesso societal de «destruição de valor»...
Um outro aspecto a considerar seria a hipótese de programar como simular os «mecanismos de atenuação ou "fuga do abismo" da queda da taxa de lucro». De facto, no mundo real do muito complexo entrelaçamento entre a Economia e as Finanças, tem havido muitas técnicas para obviar aos efeitos imediatos – no rendimento dos «donos do Capital», de modo a «adiar o mais possível o inevitável».
Por outro lado, adoptar antes a abordagem da modelação com base em agentes ("Agents Based Modelling") em que os diversos agentes heterogéneos, tivessem apenas em comum a «função de utilidade» (maximização do seu benefício pessoal) sujeita (ou constrangida) a esta lógica aqui programada.
Mas haverá mais coisas que outros poderão sugerir, depois de entenderem as idéias que lhe estão aqui subjacentes.
Para concluir, uma coisa que ainda me vai surpreendendo (?...) é o facto de não ter ainda surgido um candidato a doutoramento em Ciências da Complexidade que se queira meter a elaborar uma Tese sobre esta temática.
Já houve prémios «Nobel» em  Economia por «avanços» muito menos significativos na compreensão dos fenómenos económicos
Mas, seja como for, ou por outro lado, está-me a chegar a fase da «cana de pesca». Estou disponível para comprar uma e começar a sentar-me nas rochas junto à praia, aqui a uns 500 metros de casa...
Não haverá por aí ninguém que queira vender uma cana de pesca usada? 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 4

Quase a acabar (estes esclarecimentos...)

Considera-se que – em última análise – a totalidade da sociedade humana se pode «resumir» a dois grandes grupos de agentes económicos. Estou a falar de «modelos representativos», «arquétipos» ou «entidades abstractas» que no entanto se corporizam em pessoas e instituições concretas.
A sociedade humana como um todo, na sua interacção com a Natureza, dispõe de dois tipos de instrumentos, meios ou «ferramentas». Por um lado será o «capital acumulado» (sob a forma de máquinas, tecnologia – ou saber acumulado - estruturas fabris diversas e outras obras de engenharia vindas do passado); por outro lado será o «capital vivo», a capacidade que os seres humanos vivos têm de trabalhar e produzir o que quer que seja.
No modelo que aqui se procura explanar, ao capital acumulado chamamos de «capital constante» (ou «constant capital») e ao capital vivo chamamos de «capital variável» («variable capital»).
Em cada ciclo de produção (anual, por exemplo...) todos e cada um dos membros «adultos» da sociedade humana está em permanente processo criativo. Daí resultam (têm resultado...) permanentes melhoramentos sobre as «formas de trabalhar» nos mais diversos tipos de actividade. São os ganhos de produtividade.
No modelo que aqui se procura explanar, na sequência de cada ciclo de produção (de tudo e mais alguma coisa) considera-se que alguma parte do excedente produzido reflui (regressa ou retorna) para o sistema sob a forma de «investimento» e que nesse investimento há ganhos de produtividade.
A esses ganhos de produtividade chama-se aqui «impacto sobre o "capital constante"» e «impacto sobre o "capital variável"».
Presume-se que cada agente representante do "capital variável" dispondo embora de 24 horas por dia, dedica no entanto «apenas» 10 horas por dia a actividades de «transformação» da Natureza ("virgem" ou "já parcialmente transformada").
Em rigor, a lógica do sistema acaba por ser a mesma, quer se trate de 10 horas por dia quer se trate de 5 ou 6 horas de trabalho por dia...
Um outro aspecto a considerar será a relação entre «trabalho necessário» (à «reprodução social») e «trabalho excedente» (aquele que PODE reverter para o processo de acumulação).
São estas as variáveis fundamentais da «camada geológica» (pouco ou nada visível) do sistema económico. A lógica daquilo que se passa a esse nível é determinante e condiciona tudo o mais que se possa passar nas «camadas superiores» (o subsistema dos preços, as instituições, as finanças, a governação...) do sistema económico global.
Num próximo e ultimo esclarecimento (para já...) espero indicar como tudo «isto» tem a ver - ou está implícito - no modelo aqui desenvolvido.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS – 3

Continuação...
Nas sociedades que hoje consideramos «antigas» ou «primitivas» o processo de «acumulação» era naturalmente elaborado pelas colectividades como um todo, cada uma sob a direcção de um «chefe», fosse ele um «rei», um «imperador» ou outra coisa qualquer.
Para efeitos desta explanação, digamos que a partir de certa altura – e de modo diferenciado em cada sociedade humana – o processo de acumulação passou a beneficiar uns grupos em detrimento de outros. Ou então beneficiando mais uns grupos sociais do que beneficiava outros grupos dentro da mesma sociedade. Podemos também assumir (ou supor) que alguns grupos sociais dentro de algumas sociedades conseguiam impor, a outras sociedades «estrangeiras», a entrega dos seus excedentes, no todo ou em parte. Para o efeito era preciso fazer alguma forma de expansão territorial, normalmente acompanhada de expansão demográfica.
Mas isso da expansão geográfica e demográfica é aqui e para já (para esta explanação), pouco relevante. 
O que importa aqui considerar é que a partir de determinada altura alguns dos grupos de «agentes económicos» que se iam apropriando dos excedentes produzidos no seio de cada sociedade como um todo, autonomizaram-se (nesse processo de apropriação) relativamente aos «chefes», «reis» ou «imperadores» que até aí tinham sido os «agentes» preponderantes nas decisões de produção de excedentes e sua apropriação (colectiva ou pessoal). Estou aqui a pensar em canais de irrigação assim como em fábricas (manufacturas reais) e criação conjunta de companhias magestáticas por parte de alguns «soberanos» e grupos de mercadores.
Essa autonomização veio a dar origem a um predomínio – hoje absoluto – de um determinado conjunto de regras que determinam o modo como se joga a interacção entre, por um lado, a sociedade humana com a Natureza e, por outro lado, entre dois grandes tipos de «agentes económicos».
Relativamente à interacção entre a Humanidade e a Natureza pouco há a dizer aqui, a não ser chamar a atenção para o facto de que o crescimento ilimitado (porque também é disso que se trata) num planeta com claros e bem determinados limites físicos é simplesmente impossível a partir de uma determinada fase do processo de acumulação.
Se estamos perto ou ainda longe de alcançar esses limites é algo que aqui não interessa para efeitos desta explanação. Apenas se presume aqui que o processo de acumulação continua através da apropriação e transformação de parcelas da Natureza, por parte dos diversos grupos sociais.
Por outras palavras, é ao mais profundo nível de abstracção, e tendo em linha de conta apenas a produção e distribuição de «coisas com valor» que se deve proceder a esta análise. A questão da expressão monetária desses valores (ou seja, o «dinheiro»...) não entra aqui nestas considerações.
São questões importantíssimas mas devem ser discutidas a outro nível de análise.
(para continuar...) 
 

A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS - 2

(continuação...)
Ao longo dos milénios, desde tempos imemoriais, todos os grupos humanos sempre tiveram a possibilidade – ou a capacidade – para produzir mais do que o necessário para a sua própria reprodução como espécie biológica.
Podemos mesmo dizer que a humanidade é a única espécie biológica que tem essa capacidade. Todas as outras espécies limitam-se a reproduzir-se enquanto tal. De certa forma, todas trabalham. Mas só a humanidade realiza «trabalho excedente».
No caso das muitas espécies animais todas elas fazem «trabalho» no sentido de que aplicam a sua força ou energia na transformação (ou deslocação) de matéria. No caso dos herbívoros, na busa de vegetais apropriados à sua alimentação. No caso de carnívoros, na caça de herbívoros. Em todos os casos na procura e/ou construção «pré-programada» de ninhos, covis ou outros refúgios.
No caso da esécie humana, no entanto essa aplicação de trabalho (ou energia) na transformação (ou deslocação) de matéria segue-se a uma resolução e acaba sempre por ter objectivos ou finalidades que ultrapassam a mera reprodução.
Ao longo dos milénios alguns grupos humanos, no entanto, têm-se limitado a «gosar a vida», trabalhando apenas o suficiente para se reproduzirem enquanto grupo social, dedicando o resto do tempo actividades conscientemente culturais de recreio e lazer. Mas a grande maioria dos grupos cedo começou a acumular. Desde a China e Japão, até às Américas, passando pela Índia, Indonésia, «Médio Oriente, Egipto, Etiópia e resto de África, são hoje ainda conhecidas enormes obras de engenharia civil que testemunham essa capacidade de produção de excedentes. Estou não só a referir-me a coisas como pirâmides e palácios e templos, mas também a sistemas de irrigação e de arroteamento e demarcação de terras. O resultado natural dessas manifestações do trabalho excedente de muitas gerações, designa-se então por «acumulação».
Os conceitos aqui a reter, para já, são as noções de «trabalho necessário» (à reprodução de cada grupo social), «trabalho excedente» (para além da mera reprodução) e «acumulação».
 (continua)